quinta-feira, 1 de novembro de 2007

[ Entrevista ] Ordinaria Hit

Bem, hoje é um dia triste.
Não é a chuva, não é a véspera de feriado e nem a mínima “derrota” na construção de um movimento estudantil indepedente e autônomo.
A tristeza é provocada por causa do cancelamento da terceira edição do “Mau Humor Zine”, porque até o mês de janeiro não teremos condições financeiras para fazer as impressões e nem tempo para “bolar” a arte/diagramação.
Não estou com a intenção de “engavetar” o material, então resolvi publicar no blog.
Desde já peço milhões de desculpas para todos/as colaboradores/as.
Somente um aviso: Não desisti do zine de papel!!!


1- Ao iniciar uma entrevista não tenha idéia dos meios para do fugir do óbvio. Então, quem é quem e quais são suas ocupações por trás desses hits ordinários?

Bá: A banda é João Riveros na guitarra e vocal, eu no baixo (começou assim, só nós dois, gravando em casa, com a ajuda de uma bateria eletrônica, a Cristine). Na seqüência entrou o Rodrigo Rosa na bateria, o Scott na outra guitarra e por fim o João Branco no violoncelo. O Scott acabou saindo pouco antes de gravarmos o “Bricoleur”, a mãe dele também chamava Cristine, ou algo assim.

O João Riveros faz boa parte das letras e talvez das bases pras músicas também. Mas construção musical, o resultado final que você ouve no CD, ou nos shows, é divido entre todo mundo da banda. Todo mundo dá idéia, e NUNCA uma música sai intacta, foi gravada do mesmo jeito que apareceu pela primeira vez no ensaio. Aliás, essa é uma característica bem marcante na banda, as composições são abertas, tem muito improviso. É difícil tocarmos uma música duas vezes exatamente do mesmo jeito.

2- Baixo, guitarra, bateria e vocal são instrumentos comum numa banda punk, o diferencial é presença do violoncelo, como surgiu essa oportunidade da inclusão do instrumento e tem mais, como poderiam situar musicalmente e politicamente a banda?

Rodrigo: A inclusão do violoncelo foi, sem dúvida, uma influência direta da colaboração entre a banda holandesa The Ex e o violoncelista Tom Cora. Os dois discos lançados (Scrabbling at Lock e And the Weathermen Shrug Their Shoulders...) são dois dos nossos discos preferidos, de cabeceira. É claro que isso também é fruto de um certo grau de casualidade, pois conheci o João B. quando ele foi trabalhar comigo há alguns anos e ele demonstrou gostar de rock e começamos a nos aproximar nessa questão musical.... Mais ou menos na mesma época em que soube que ele tocou violoncelo quando criança o Ordinaria Hit havia composto Conforme a Música e o Bá disse: porra, bem que podia ter um violoncelo nessa música! Bom, aí rolou do João ensaiar para gravar essa música com a gente e acabou ficando, pois o resultado foi muito bom.
Mas nem só da estranheza do violoncelo vive o Ordinaria Hit. Há algum tempo temos mais um instrumento “não-convencional” no rock, o saxofone do Renato Ferreira. A história foi mais ou menos a mesma: fizemos o convite para fazer uma participação no nosso novo disco Bricoleur na faixa Caixa Postal 195 e adoramos o resultado, tanto que agora vamos compor e gravar um disco inteiro em parceria com ele.
Além disso, usamos eventualmente teclado, bateria eletrônica e bases pré-gravadas. O Renato toca ainda clarinete e baixo acústico.

Musicalmente acho que estamos no mesmo espírito do Fugazi, The Ex, Sonic Youth, Joy Division, Nick Cave, Neil Young, Crass, Naked City e muitas outras.

Somos uma banda politizada e isso fica muito claro em nossos discos, nas referências, nas letras e na estética. Também os lugares que freqüentamos e apoiamos demonstram um pouco nossa posição frente às questões sociais e políticas. Cada um na banda tem sua visão, mas todos no campo do que se convencionou chamar de esquerda. Agora, posso falar por mim com mais tranqüilidade: sou um anarquista e isso, creio, que reflete na banda também... assim como a postura de cada um.

Ba: eu não lembrava que tinha sido eu que comentei sobre o violoncelo na Conforme a Música, mas pode deixar assim, gostei de ter esse crédito!

3- Os discos lançados são basicamente em cd-r, essa escolha tem alguma razão especifica, vocês tem algum problema com a industria de CDs ?

Rodrigo: Não sei se temos um problema com a indústria fonográfica, só acho que vivemos como banda muito bem sem ela. Hoje é muito fácil fazer seus próprios discos, gravar um CDR, imprimir, xerocar ou serigrafar uma capa...enfim, colocar sua imaginação para funcionar adaptada aos seus recursos financeiros. Prensar CD em fábrica, além das chatices burocráticas e do envio de dinheiro para grandes indústrias e multinacionais, costuma condicionar os artistas à preguiça, à alienação da produção de sua obra e à falta de criatividade (já que 99% dos CDS de fábrica são iguais, ou seja, em caixinhas de plástico, como o mesmo tipo de encarte, e etc).
Eu acho que se alguém quiser lançar um disco do Ordinaria Hit e decidir faze-lo numa fábrica, acho que não teria problema, desde não fossemos nós que estivéssemos pagando ou tentando cumprir toda a burocracia de registros e contratos. Pra gente seria mias um disco, num formato tradicional (coisa que até hoje não lançamos). Seria uma novidade e uma surpresa e teríamos que discutir sobre essa questão.

4- Outra coisa sobre os discos lançados, os formatos são variados, como mini-cd, cd com k7 e afins, quais são os materiais gravados e lançados até o momento, previsão para outros discos ?

Ba: começamos com o combo “Ordenado em Duas Vias” em 2002 (a primeira via seria um CD, a segunda um cassette, o pacote contava ainda com um livro “O Direito à Preguiça” ou “Desobediência Civil”). Depois lançamos o mini-cd “Notas”, em 2004.Em 2005 veio a oportunidade de lançar um split com o pessoal do Labirinto, o cd duplo chamado “Pseudo-segurança compensatória”. E por último, em 2006 o Bricoleur, que contou com a ajuda da L-Dopa, de curitiba e da Fuck it All, de Brusque.Temos um projeto que insistimos em não jogar fora de um lançamento só com lados B da banda, versões que não usamos, rascunhos de música, gravações ao vivo e esse tipo de coisa não tão convencional. O Rodrigo já falou também sobre o disco com o Pix. Talvez saia um compacto em vinil mais pra frente... Vamos ver.
5- O último disco lançado recebeu o título "Bricoleur", na arte do cd está desenvolvida o conceito de "bricolagem", poderiam nos dizer o que é "bricoleur", "bricolagem" e de que maneira está ou pode passar inserir-se em nossas vidas ?

Rodrigo: Bom, o conceito de bricoleur aparece o tempo todo no disco, em seus múltiplos sentidos e variações dentro de um jogo que criamos de mensagens panfletárias, conceitos filosóficos, imagens e até mesmo na música em si.
Foi depois de uma má sucedida negociação com uma gravadora, onde não houve acordo entre as propostas do selo e as nossas, que decidimos fazer um disco que traduzisse nosso jeito de compor e de fazer as coisas, ou seja, que colocasse à mostra o improviso, a colagem e o faça-você-mesmo que vivemos e produzimos como banda. O tema do disco surgiu duma necessidade de reafirmar para nós mesmos o caminho que escolhemos. Mas ao procurar interpretar o que fazíamos e pensávamos durante esse processo encontramos relações com muitos outros aspectos da vida, muito além da música.
O conceito de bricolagem é bastante amplo e nós jogamos com ele em nosso disco. Para além daquela idéia de construir as coisas por si mesmo, que é onde vemos o termo mais difundido, seja através de manuais de bricolagem ou de lojas que vendem material e ferramentas para as pessoas consertarem e construírem suas coisas, nós levamos a bricolagem para campo da música (punk, faça-você-mesmo, improviso) e para o campo da política (autogestão, horizontalidade, mutirão) e até para o campo pessoal (resolver as coisas com o que está à mão, criar estratégias de sobrevivência). Esses campos compõem a vida e se relacionam entre si. Acho que isso que tentamos capturar nesse disco, essa relação de proximidade prática e teórica entre coisas que aparentemente são ou estão afastadas e isoladas.

6- Na turnê dos últimos dois discos lançados, Ordinária Hit tocou pelo sul do Brasil, viajando quilômetros e mais quilômetros em carros pouco confortáveis e carregados de instrumentos. Inclusive tiveram dois shows num cemitério indígena, como foram essas experiências ?

Rodrigo: Pra gente sempre é muito bom viajar. Assim, além de tocar, conhecemos lugares novos, pessoas legais, projetos interessantes....
Nossas viagens são na maioria das vezes apertadas mesmo, pois viajamos em 5 pessoas mais todos instrumentos e bagagens. O violoncelo ocupa o lugar de uma e costuma viajar confortável no colo da gente. Mas fazemos isso porque gostamos, então não é nenhum sacrifício. Todas nossas viagens foram legais. Fomos 3 vezes para o sul do país.
A primeira passamos por Curitiba, Joinville, Brusque e Florianópolis.
No lançamento do Bricoleur em 2006 fomos para o Rio Grande do Sul (Santo Antônio da Patrulha, Porto Alegre, Santa Maria e Caxias do Sul), tocando na ida em Florianópolis e não conseguindo chegar em Brusque a tempo de tocar.
E em novembro passado voltamos a Curitiba, Joinville e Brusque.
Esse ano pretendemos tocar pelo sul de novo no segundo semestre. Aguardem.

Ba: Agora que você falou sobre carros pouco confortáveis eu lembrei que o Pix, que é como a gente chama o Renato, tinha arranjado um carro grande pra fazermos essa viagem pra Porto Alegre e região. No dia anterior, mas assim, meia noite, ele me disse “Economize na bagagem porque vamos viajar com um carro menor”. No dia seguinte ele apareceu com um carro que só cabia meu baixo, o saxofone e a mala dele (a minha já foi no banco de trás) e ainda faltavam pegar mais 3 ordinários. O resultado foram dias enfiados num carro com o pescoço torto, violoncelo no colo do carona e o baixo encaixado atrás do câmbio, no meio da perna do sortudo que sentava no meio. Mas o role foi tão foda que não perdemos a classe nem tocando no cemitério indígena de Joinville (aliás o show foi bonzão, pena que quase ninguém viu). Em algum ponto dessa turnê, olhando pra janela, atrasado pro próximo show e resfriado, eu jurei secretamente que nunca mais faria algo do tipo. Eu estava errado: o mesmo carro acabou de voltar de 4 show bons demais no Espírito Santo e Rio de Janeiro. Em julho a gente vai pra Argentina e Uruguai.

7- Na cidade de São Paulo e região, a banda apresenta-se com certa regularidade, qual é a receptividade a sonoridade e próprio circuito de shows em São Paulo ?

Rodrigo: Bom, não sei direito. Nosso som é meio estranho e as pessoas têm reações bem diferentes, até porque cada show é bem diferente um do outro. Não sei mesmo responder sobre isso.

Ba: Se bem que temos tocado até mais fora de SP, estamos fugindo, eu acho. Aqui o que rola mais é show em balada, o pessoal observando, analisando, braço cruzado, drinkzinho na mão, dá uma risadinha, conversinha, dancinha é aquela coisa... Agora, fora de SP, geralmente o esquema é outro. Dormimos nos mais diferentes lugares, conhecemos pessoas incríveis (no bom e mau sentido) e é uma experiência muito mais enriquecedora do que tocar em baladinha. Sempre que dá para tocar fora desse esquema nós tocamos, é bem melhor.

8- O que me chama atenção na banda, é que todo momento a ética "faça você mesmo" em total evidência, como manter a banda viva e independente, sendo que as "tentações" de cair no "mercado fonográfico" estão batendo em nossas portas todo momento ?

Rodrigo: Nós não temos essa “tentação”, pelo menos não mais. Talvez no começo tivéssemos algum desejo secreto de sucesso ou esperança de rolar algo desse tipo, mas com o amadurecimento da banda e a sintonia entre os integrantes conseguimos encontrar nosso jeito de produzir música. Outra coisa é que o “mercado fonográfico” não vive batendo na nossa porta, acho que percebem que não somos simpáticos ou que somos radicais demais ou simplesmente que somos invendáveis, um péssimo investimento para qualquer um.
O faça-você-mesmo para a gente é um fim e não um meio. Não somos independentes ou de garagem para um dia deixarmos de ser. Isso é o que o punk tem de mais forte e vital em tudo o que ele produziu e é esse espírito que tentamos manter vivo na banda.

Ba: Eu sei que vc estava brincando quando falou sobre a “tentação”, mas reforçando o que o Rodrigo disse, essa coisa do “faça-você-mesmo” é tão poderosa, tão produtiva e tão gratificante, é um incentivador brutal. Eu não penso em um outro jeito de se fazer as coisas, em qualquer esfera da vida. E para a banda, é aquele tapa na cara desse pessoal, profissionais da cultura, jornalistas, “promoters”, sabe o que eu estou falando, é uma maneira de falar: “Foda-se você e o seu carimbo de qualidade, o seu joinha, eu mesmo faço minha música, meu show, meu disco”. E funciona! Sem propaganda, sem vídeo clipe, sem dinheiro e com carro apertado a gente já tocou numa porrada de shows, num monte de lugares, lançamos um monte de discos... esperamos que isso “contamine” alguém também.

9- Produção gráfica, organização de eventos anarquistas, editora de livros libertários são algumas atividades que os ordinários estão envolvidos, vocês poderiam tornar público um pouco dessas atividades e outras que desconhecemos ?

Rodrigo: Bem, é óbvio que cada um produz coisas além da banda (muitas que influenciam diretamente a banda ou que são influenciadas por ela).
Ba: O Rodrigo tem a Index, junto com a companheira dele, a Bruna, e é uma editora totalmente faça-você-mesmo. Tem um catálogo interessante pra cacete, e eles montam livro por livro, na mão, um por um.

Bá: Eu trabalho com produção gráfica, ilustração, etc. É o que eu gosto de fazer. E é só mais uma saída, mais uma maneira de dar vazão à criatividade e idéias. Mas o mais importante é que eu não tenho chefe. É uma “empresa” com um funcionário: eu. (é um escritório dentro de casa) E é como eu falei ali atrás sobre se aplicar a ética do faça você mesmo “a qualquer esfera da vida”.



10- Muito obrigado por responder, o espaço é de vocês:

Rodrigo: Opa. Valeu Maikon pelo espaço e pelo apoio que você vem dando ao Ordinaria Hit. Desejamos que o Mau Humor siga sendo um dos fanzines mais legais do país.

Ba: Fanzine de papel!!!

Quem quiser, entre em contato com a gente:
Ordinaria Hit
Caixa Postal 195
São Paulo – SP – Brasil
01009-972
contato@ordinariahit.net
http://www.ordinariahit.net/
www.myspace.com/ordinaria

8 comentários:

camila disse...

nãaao! Quer ajuda pra diagramar?

Alan Gramado disse...

bela entrevista!
ordinaria hit, umas das trilhas sonoras da minha vida.
abraço Maikon.

Ana Domenes disse...

Que pena que o zine de papel não sai por agora... mas não desanime. Pelo menos, o blog é um meio de não ficar parado e manter a escrita em dia. Não conheço a Ordinária Hit, mas foi legal ler algo por aqui. E o papo insano com seu amigo de msn sobre o nxzero... hehe... mto boa. Eu tb fico com o cara do Matanza... haha...brincadeira.

Bjs, Drica.

Giba disse...

Muito bom seu blog. Já adicionei um link dela no meu blog.

La disse...

poxa :/ uma pena que o zine de papel não irá rolar por enquanto :/ mas, se vc engaveta-lo, considere-se morto. ueheuheuhe zuando... beijos! :*

ganesha.zine disse...

hey thanks for post in ganesha zine.
im writing to you in english cause i dont speak protuguese.
i like a lot ordinaria hit.

take care and stay in contact

ariel

cookie heart disse...

Poxa, Maikon... vou esperar a versão papel ainda, mas curti a entrevista! ;)
Quanto a diagramação, essas coisas, deixa eu aprender um pouco que nas próximas te ajudo facinho, tá?
Beijo!

Bira disse...

diagramero e artero não falta rapá... eu sou só mais um.