terça-feira, 13 de novembro de 2007

[ Livro ] Tô apaixonado por uma morena comunista.

A Tina Modotti era uma desconhecida para mim, mesmo que as leituras dos cenários dos levantes sociais das quatros primeiras décadas do século XX tivessem recebido diversas leituras, conversas e assistidos filmes. Em quais labirintos e ruas escuras da conspiração esteve Tina que não a conheci antes ?

Felizmente o livro "Tina Modotti: uma mulher do século XX" de Ángel de la Calle, espanhol de Salamanca ( 1958 ) possibilitou esse encontro e o despertar de uma recaída paixão a uma mulher de cabelos lisos, morenos, imigrante italiana nos E.U.A e dedicada militante ao comunismo autoritário. Eu, um anarquista em pleno século XXI apaixonado por um mulher falecida em 1942, devo estar perdido ideologicamente ou carente ? Melhor não tentar responder.
O ambiente artístico e de contestação no México dos anos de 1920, a agitação comunista na Alemanha pré-Hitler, a guerra civil espanhola, a URSS e os atos conspiratórios da KGB, o cinema estadunidense da década de 1910, a fotografia e os amores despertados e vivenciados foram os componentes da vida de Tina, acompanhado de outros personagens como o brasileiro Luis Carlos Prestes, a comunista do mundo Olga Benário, Frida Kahlo, Rivera, Neruda, Maiakóvski, Sandino, John dos Passos entre outros e outras estão ao lado em todos nesses 28 primeiros anos do "breve século XX", que segundo o historiador Eric Hobswan inicia-se com a primeira guerra mundial ( em 1914 ).

Agora, ao meu lado está o livro e três páginas com as anotações da leitura, procuro uma melhor maneira para sistematizar esses rabiscos e as idéias para expressar em um texto, porém estou perdido nas lembranças da prazerosa e apaixonada leitura da história em quadrinho ( já estava esquecendo de mencionar, a biografia é no formato de história em quadrinhos ) sobre Tina Modotti. Os traços desse livro é repleto de um clima "noir", próximo de filmes e da literatura policial, o que no transcorrer da leitura Ángel acaba deixando claro sua paixão por esse segmento. Também o apelo a imaginação e a diversas hipóteses, afinal com uma vida repletas de mistérios, muito se perdeu e outros pontos não foram documentados sobre Tina, assim o que pensava Tina enquanto se banhava com o belo sol no céu do México, ou o que se passava em sua cabeça nos momentos que estava sozinha na fria Berlim ?


Bem, o autor provoca os traços e o argumento com atmosfera de uma mulher enigmática, viva, sexy, de plena dedicação aos seus ideais e fidelidade aos postulados do Partido Comunista, seja no México, Alemanha, URSS, França ou Espanha, em determinados momentos acaba se questionando, mas prevalece a fidelidade. Porém, o autor não deixe de pontuar sua perspectiva de contrariedade em determinados aspectos. Por exemplo, na década de 1920, quando os EUA prendeu e colocou no corredor da morte os anarquistas Sacco e Vanzeeti, ocorreram diversas manifestações de solidariedade aos presos políticos, inclusive de organizações comunistas autoritárias e em determinado ponto do livro, Rafael Sormetti, um dos personagens diz: "A colônia italiana é fascista, Tina... E bom, não importa tanto...Eles já estão praticamente justiçados...", Tina com cara de espanto questiona e recebe como resposta: "Tina... são anarquistas. Enfim, são inimigos." São em trechos como esse que o Ángel de la Calle pontua sua perspectiva crítica na história de Tina Modotti.


Nos dias de Tina não deixaram de passar eventos como as discussões de uma arte independente ou de adoção do realismo socialista, embates e perseguições da política stalinista aos trotkistas, o levante fascista dos franquista na Espanha e a realização da coalizão espanhola de republicanos, comunistas e anarquistas, o a decepção provocada pela aliança assassina de Stalin com Hitler e assim vai sua história de segredos e de memórias pessoais não registradas.

A beleza de uma mulher de combate, por traços firmes e climão “noir” e intervenções de ponto de vistas do autor, acompanhado de seu amigo agitador cultural de esquerda, são alguns dos pontos que fizeram dessa leitura um prazer e uma maior curiosidade em torno de Tina Modotti.


Informações das imagens do "post".
Imagem 1 - Capa do livro: Tina Modotti: uma século do XX.

Imagem 2 - Tina Modotti por Edward Weston, 1924.

Imagem 3 - Capa do livro que reúne as fotografias de Tina Modotti.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gracias por tus palabras acerca de mi libro sobre Tina Modotti. Yo tambien soy anarquista, y ya ves, me he pasado años pensano en una estalinista.
Los quadrinhos son un lenguaje narrativo tan bueno como cualquier otro para hablar de personas e historias.
Salud
Angel de la Calle