quarta-feira, 23 de abril de 2008

[ História da cidade ] Lutas sociais na cidade: fragmentos da história do Bairro Floresta.

Lutas sociais na cidade: fragmentos da história do Bairro Floresta.

– Parte 01 -

Há tempos penso em articular melhor as idéias e escrever um esboço sobre fragmentos da história do meu bairro. Resolvi a iniciar a exposição dos pensamentos sobre a trajetória das lutas sociais.

Preciso deixar claro, que não vou fazer análises históricas sobre os caminhos da resistência social no meu bairro, são mais relatos de leituras, história que ouvi e de outras que vivencie de alguma maneira.

O objetivo é levar a todos-as que história da cidade não é aquela historinha bonitinha dos alemãozinhos chegando e vivendo em paz nesse calor infernal. Afinal, partiram de lugar frio e por aqui passaram um sofrimento danado. Também que nem tudo são “ordem” e “trabalho” como as vozes dos poderes até hoje fazem acreditar.

Hoje, quando buscamos lutar por nossos direitos ou pela transformação da cidade torna-se comum o discurso de que não adianta nada essas ações. Porém, ao olhar para o passado e buscar uma reflexão, mesmo sem metodologia cientifica para análise podemos compreender e perceber alguns frutos das articulações, organizações e ações na história recente da cidade.

O Bairro Floresta e eu – 1981 até hoje.

Nasci, cresci e ainda vivo na zona sul de Joinville-SC, em todos esses anos morei um bom tempo no Bairro Floresta. Quem tem uma convivência mais próxima já escutou a história de que o bairro é o berço da esquerda joinvilense, e que ao entrar nas ruas do Floresta poderá sentir a mística da justiça social, liberdade e igualdade.

O comentário brincalhão ganhou vida por duas razões. A primeira porque durante criança freqüentava a Comunidade Católica da Igreja Cristo Ressuscitado, onde predominava a teologia da libertação, que buscavam as realizações de justiça, paz e uma vida digna para todos-as em terra e não somente no reino dos céus. Outra razão foi uma matéria no Jornal Anotíca, publicada no mês de dezembro de 2002, a chamada era o Bairro Floresta como o cenário das lutas sociais na década de 1970 - 1980 e também como base para o nascimento do Partido dos Trabalhadores, quem em 2002 elegia seu primeiro presidente. Por preguiça. Resolvi fazer um texto meio cronológico, começando pela relação de moradores do Bairro e o PCB, depois sobre a Igreja do Povo e finalmente sobre MPL, Associações de Moradores e movimento operário na zona sul.

Um panorama do bairro:

O Bairro está localizado na zona sul da cidade, próximo do centro cerca de dez minutos de carro, vinte e cinco de ônibus e quarenta a pé. No final dos anos de 1960 (estou sem dados da fundação do bairro) e começo dos anos 1970 aconteceu um crescimento muito rápido de moradores-as. Por exemplo, os dois anos apontados anteriormente a cidade tinha cerca de 170 mil habitantes, com o crescimento das Indústrias e a campanha para recrutar mão-de-obra em outras cidades fez Joinville crescer populacionalmente, sendo que hoje, quarenta anos depois, encontra-se com a média de população de 600 mil habitantes.

Os homens e mulheres e suas respectivas famílias procuravam residir nos bairros próximos aos seus postos de trabalho, especificamente nos lugares periféricos nos idos de 1960-70. Um dos primeiros lugares a serem habitados passaram a ser o Bairro Floresta.

Os espaços urbanos ocupados não tinham as condições necessárias para uma vida digna, desde saneamento básico, acesso à saúde pública e passando por questões de transporte coletivo urbano. Talvez os problemas que surgiram levaram os-as moradores-as se organizarem e buscarem a conquistar as melhores condições para viver no bairro.


Os comunas do bairro Floresta – 1960 e 1970 .

Um dia desses tive acesso ao livro “Os quatros cantos do Sol: Operação Barriga Verde”, autoria de Celso Martins (lançado pela editora da UFSC em 2006). O recorte do livro é em torno das ações do Partido Comunista Brasileiro, (PCB - conhecido por Partidão), em Santa Catarina, que desde a instalação do Golpe Militar no dia primeiro de Abril de 1964 buscou a frente de resistência ao regime repressivo do Estado Brasileiro. Os Partidos de esquerda e as organizações sociais e populares foram destinados à clandestinidade, e nos subterrâneos das cidades resistiram.

Nas páginas destinadas aos “comunas clandestinos” na cidade de Joinville, segundo o autor, a força de articulação e resistência ocorria na frente operária, sendo especificamente na categoria dos trabalhadores nas fábricas de materiais plásticos. Um número reduzido de militantes estava ligado ao PCB. Podemos considerar os fatores de baixa adesão os tempos nebulosos da Ditadura Militar, a propaganda anticomunista que circulava nas Igrejas e também a predominância dos discursos oficiais como a cidade da “ordem” e do “trabalho”, que felizmente predominava na prática discursiva do poder constituído na localidade, mas nos diferentes espaços do cotidiano ocorriam práticas de resistências e oposições ao discurso “pacificador” e “trabalhador”.

Uma das principais Fábricas que utilizava materiais plásticos como matéria prima era a Cipla, que ainda hoje se localiza na zona sul de Joinville. Segundo o livro, dois trabalhadores eram militantes do PCB, o Julio Serpa e Osni Rocha, o primeiro residia na Rua Botafogo no Bairro Floresta e o segundo na Rua Babitonga no mesmo bairro. As duas ruas estão mais de trezentos metros de distância uma da hora, muito próximo da Sede do Clube Florestas, da casa do meu amigo Rodri e do trampo do Nalvan.

Os dois personagens contribuíram na organização do Sindicato dos químicos e plásticos, assim como participaram de experiências muito interessantes na luta por melhores salários. Por volta dos primeiros meses de 1969, antes da instalação do Ato Institucional número 5, os-as trabalhadores-as da Cipla, cerca de 300 a 400, com pouco apoio do Sindicato se organizaram e procuraram os patrões na Cipla e solicitaram um reajuste salarial, ou os-as trabalhores-as estariam com disposição de pedir a demissão. Ameaçados, os patrões acataram e os-as trabalhadores-as não sofreram repressões externas, mas internamente foi contratado um chefe de segurança e o papel passou era de colocar um fim nos agitadores.

Em relação à Cipla é importante relatar que essa é a primeira informação que tenho noticias de organização e protesto operário nessa empresas. Os trinta anos posteriores também ocorreram diversas organizações e protestos. Sendo em 2002 uma vitória emblemática dos-as trabalhadores-as, mas esse ponto voltarei na terceira parte texto.

A importância da leitura é tremenda, um exemplo foi ao conhecer que por aqui, Joinville mesmo, por volta dos anos de 1964-65 se fazia presente a expectativa de pegar em armas e opor a Ditadura Militar por meio da luta armada, sendo que chegaram acontecer treinamentos na baía da Babitonga. A idéia da luta armada foi abandona em 1967, assim passaram a se organizar dentro do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e fazer a via legislativa como o espaço de construção democrática e ou mesmo tempo atuando em outras frentes, como as sindicais e estudantis.

Naquele momento existiam dois partidos políticos autorizados, a ARENA que era a base “civil” de apoio dos militares no poder e o MDB, que buscava o estabelecimento da democracia representativa por meio das eleições e participando desse nebuloso circulo partidário.. Em relação aos partidos existe uma anedota que a ARENA era a favorissímo ao Regime Militar, enquanto o MDB era “somente” a favor dos militares no poder.

As trajetórias de ações do PCB relatada acima foram suprimidas com a Operação Barriga Verde, que em 1975 provocou a prisão de cerca de 40 militantes comunistas em diversas cidades catarinenses. O Julio Serpa e Osni Rocha, ambos moradores do Bairro Floresta, sofreram com essas prisões e as consecutivas torturas. Ao mesmo tempo deixaram sua marca na construção de uma realidade diferente que estávamos condicionados a viver.

Considerações premilinares:

No circulo dos debates históricos sobre as contribuições das diferentes frentes de organização e atuação contrária o regime militar existe visões e enfrentamentos que valem a pena conferir. Ainda não tenho definido uma visão das ações do PCB em Joinville na oposição a Ditadura Militar.

Com a leitura do livro, podemos observar que aconteceram resistências na cidade, sendo o Bairro Floresta como um dos cenários das reuniões e articulações. Ao mesmo tempo ocorreu uma contradição ao optar pela atuação via MDB, basicamente, por de uma maneira ou outra acaba dando legitimidade a Ditadura Militar ao concordar com o regime “democrático” do Bi-partidaismo e se aproximar de fato com setores da classe empresarial da cidade, por exemplo, a figura que do falecido empresário e político profissional e conversador Wittch Freitag.

Talvez por isso podemos entender alguns aspectos do desaparecimento do PCB em Joinville. Agora, nos falta buscar informações mais concretas de onde estão nossos dois personagens, Julio Serpa e Osni Rocha, para registrar uma entrevista oral dentro da metodologia e potencializar o conhecimento desses fragmentos da história por um maior números de interessados-as.

Em breve

Parte 02

O Padre vermelho e os fiéis subversivos – 1970, 80 e 90.

Parte 03

As lutas sociais nos dias de hoje.

5 comentários:

Daniele Rosane disse...

Poxa Maikon! Parabéns!
Mto boa sua dissertação sobre o bairro Floresta (com toda certeza berço da esquerda joinvilense). Daqui foram inúmeras as iniciativas e práticas de oposição à repressão. Teologia da Libertação, criação de pastorais, como saúde, terra, juventude, operária, enfim, um contexto diferenciado, que buscava combater as desigualdades e lutar pelos direitos humanos...

Poxa Amigo, massa!!
Fazia tempo que eu não lia nada sobre a importante influência do Floresta!!
Valeu
Dani

neander disse...

Do América e do Atiradores é que não podia se esperar atividade vermelha! ahuahua...
Se precisar de ajuda para as outras partes, só chamar! Acharia divertido ajudar!
abraços!

Ciber Social Metranka disse...

É isso aí!Demorou pra postar sobre o Flora,e não canso de dizer que tu és um grande proliferador de boas idéias,sempre em defesa da justiça social e dos direitos humanos.

Não me surpreendo com teus textos, tu sabes porque...

Aquele Abraço!!!

H. disse...

Saludos,

Maikon,

A idéia do texto é extremamente interessante. A proposta de não "fazer análises históricas sobre os caminhos da resistência social no meu bairro", mas sim "relatos de leituras, história que ouvi e de outras que vivencie de alguma maneira", no entanto, talvez prejudique um pouco o resultado. Isso porquê: não sabendo da formação social do bairro, apenas se sabe - o que, a essa altura, já é importante - que as lutas sociais ocorreram lá e a partir de lá. Mas a questão é: porquê? Acho que sua análise deveria dar esse porquê, senão há o risco de enunciar mais um fato entre tantos. Quer dizer, você elenca com propriedade vários aspectos - o aumento populacional de Joinville em razão da demanda das fábricas, consequente ocupação próxima a esses locais e problemas de infra-estrutura nesse bairro. No entanto: o bairro Floresta é(ra) um bairro operário? Quais fábricas, além da já citada CIPLA, ficam nas imediações? De qualquer modo, a mera proximidade geográfica com uma empresa é uma resposta insuficiente, haja vista que a Zona Norte possui um número de indústrias muito superior e nem por isso teve um papel de vanguarda em Joinville.

Outro ponto: existiam outras organizações anti-capitalistas em Joinville? Pergunto isso porque o PCB em Joinville data no mínimo de 1946 - portanto 20 anos do golpe militar, um tempo no mínimo considerável. Há ainda um fato, ao que parece, isolado de um preso política em razão de participação na Insurreição Comunista de 1935. Quer dizer, se o Floresta ocupou um papel importante nas lutas populares, é razoável pensar que haja uma organização que incentivou a participação das pessoas. Ou as lutas, de maneira mais forte e exitosa, ocorreram por volta da década de 80 com as CEB's?

Sobre a extinção do PCB, acho que a explicação mais prosaica e mais provável - até porque o desaparecimento do PCB foi nacional - é o fato do modelo de socialismo proposto por esse partido se espelhar integralmente na URSS e, com a queda do "socialismo real", a queda do PCB foi uma consequência. Outra: seu apontamento sobre a razão do desaparecimento do PCB estar ligado a sua adesão quase incondicional ao parlamentarismo é, extremamente, polêmica. No bom e mau sentido: se o fracasso do PCB está ligado realmente a isso, não é menos verdade que a Guerrilha foi um tropeço - que se considere seus méritos heróicos - tão grande ou maior. Quer dizer, um ex-militante do PCB de Joinville, como o Edgar Schatzmann, defende a tese contrária: os militares eram péssimos em eleições, ninguém os colocou lá, e portanto sua ilegitimidade estava dada, daí a possibilidade de derrotá-los via eleição - se bem me lembro, o texto que li naquele livro sobre imigração de Joinville, da sua professora, insinua essa hipótese também. Comprei uma revista pro Nick na qual há uma entrevista com o Ferreira Gullar e ele fala a mesma coisa. Então: se a ditadura não cai pela guerrilha - e não cai - ou ela cai via parlamento - o que também é 1/4 da resposta, penso - ou via movimento operário do ABC. Mas, se se aceita a resposta que acabei de esboçar, o PCB não errou tão feio assim - ainda que o problema seja patente e a saída do Prestes está ligada a isso também.

Cara, que fiquem em aberto essas considerações, até porque o especialista aqui é você e não eu. Não tenho a mínima de noção de metodogia histórica e sequer sei se as questões que coloquei têm pertinência. No mais, o projeto é bem interessante, acho inclusive valia se inscrever para o edital de Cultura da PMJ - parece que há uma categoria que financia esse tipo de trabalho histórico. As outras idéias e considerações envio por e-mail, porque ou são específicas ou se referem às próximas partes do texto.

Abraço!

foradelugar disse...

Olá Hernandez,

Bem, é importante receber as opiniões diversas e não aquelas tradicionais babações de ovos, ainda mais quando estamos abordando um tema de grande validade para a construção de uma cidade baseada em laços efetivos de justiça social, em que a cada dia o respirar seja de uma democracia diferenciada do que habituamos entender como a única existente ( democracia representativa ).

A idéia de escrever o texto partiu da leitura do capitulo “clandestinos em Joinville”, publicado no livro “Os quatros cantos do sol’ de Celso Martins. A base da leitura foi somente esse livro, assim acabei negligênciando diversos questionamentos que surgiram enquanto lia e escrevia. Entre os questionamentos estavam presentes os apontados por vc.

Não quis cometer “furos” históricos ao levantar dados populacionais, pq não havia livros e dados suficientes em mãos, somente acrescentei as informações que tinha na memória de leituras anteriores, mas nada de precisão. Nesse aspecto é de extrema importância uma leitura dedicada e diversas, e as fontes para buscar os dados são diversas, afinal, está ligada a economia e ao processo de industrialização da cidade. Um ponto importante acrescentar é que hoje Joinville está com cerca de 600 mil habitantes, sendo que na década de 1970 o número era inferior a 200 mil habitantes. E os bairros localizados na zona sul ( como o Floresta ) eram de baixa habitação. Para levantar problemas, desde da pesquisa metodologica é necessário tempo e leitura, que de fato estou pensando em organizar, fazendo um recorte, inicial, de 1964 a 1984, trazendo atuação de moradores-as do Floresta no PCB e do surgimento da CEB e suas lutas sociais.

As idéias que pintaram após publicar o texto foram diversas, entre elas a fundamentação real de uma pesquisa sobre atuação da esquerda, tendo como cenário o bairro Floresta. Não pretendo afirmar, a brincadeira do bairro como “berço da esquerda’, como habitualmente faço, mas identificar e apresentar os elementos de contestação ao regime militar, sendo o foco as residentes no bairro. O pensamento não é transcorrer nas linhas nostalgicas de um passado “glorioso” de resistência e de lutas, mas de trazer a tona e ao conhecimento de um maior público, além dos bancos universitários, da passagem da história da luta de classes nas ruas do bairro que nasci e de que alguma maneira foram fundamentais para a minha formação política. Algo como se tivesse uma “dívida social” pelas missas de domingo ministrada pelo Padre Facjini. (hehehe)

Em relação ao PCB e suas caminhos ou descaminhos preciso de mais referências, até pq o livro que tomei como base ( os 4 cantos do sol ) tem diversos furos nesse sentindo, de abordar um problema mais estruturado, tem mto um olhar nostaligos da resistência ao regime militar. Como não tenho leituras amplas sobre esses caminhos e descaminhos e não gostaria de fechar o texto sem uma opinião. Deixei claro que ainda não estava com uma consideração final fechada, estava aberto e teria a necessidade de aprofundar.

Outra coisa: na historiografia tem um problema mto chato, por exemplo, os eventos, os fatos, os personagens e tudo mais que se passa na história dos principais centros do pais ( resumido ao eixo de RIO-SP ) é caracterizado como “história do brasil”, enquanto o que se passa por aqui ( Joinvas ), Belém ou Campo Grande é tido como “história regional”. Eu tenho grandes resalvas com essa coisa toda. Por isso, quando falo atuação do PCB em Joinvas e seu desaparecimento, pretendo levar em consideração os aspectos do PCB em todo brasil e na esfera global. Afinal, é uma organização que ( teoricamente ?) as deliberações eram (é?) tomada em coletivo e levando em consideração todas suas espeferas e frentes de atuação.

Nande, acabei escrevendo demais e tornando publica algumas das minhas pretensões. Gostaria de conversar mais de perto com vc essa história toda. Não pretendo encaminhar para a FCJ um projeto, essas coisas de financiamento via Estado não é me agrada saber que uma perspectiva poderá ser julgada por meia dúzia de caras de ternos e gravatas, que vão determinar o que “realmente é a história da cidade”. Prefiro pesquisar por conta e quem correr atrás de algum lugar para lançar.

Espero que tenha respondido alguns dos seus pontos. É mto bom esse debate, quem sabe com o tempo outros-as podem aparecer e discutir. Preciso dizer, por favor abandone essa história de “especialista”, pq diploma universitário não é um canal de abertura para “capacidade” ou “dominios das tecnicas” para uma pesquisa. Por um mundo livre, que todos-as ( de consciencia critica. Hehehe) possam serem jornalistas, historiadores e afins.

Qqr coisa escreva.
Abraços libertários.
Maikon K.
www.vivonacidade.blogspot.com