terça-feira, 8 de julho de 2008

[Livro] As notas sobre Rosa

Quando se pensa em práticas revolucionárias, seja no aspecto ideologico do anarquismo, socialismo ou simplesmente nas lutas sociais de contestação a ordem estabelecida os personagens, os portavozes ou rostos emblemáticos são de figuras masculinas. No século XIX podemos lembrar de Bakunin e Marx e poucos lembraram do rosto da combativa chamada Louise Michel. Enquanto no século XX podemos lembrar de Lenin, Che, Daniel Cohn Benit ou Flores Magon e poucos lembraram dos nomes da Emma Goldman, subcomandata Romona, as Mujeres Libres da Guerra Civil espanhola. Trazendo para a realidade de Joinville, é bem provável que alguns rostos masculinos do Movimento Passe Livre sejam lembrados, enquanto as faces femininas poderão ser de poucas lembranças, mesmo que são sendo em determinados aspectos a força motriz na organização da luta pelo passe livre daqui.

Na busca das explicações podemos perceber a constituição do machismo inserido em nossa história e mesmo com as mudanças econômicas e culturais a redução do papel da mulher se faz presente. Quando voltarmos nossos olhares para campo das lutas sociais não podemos deixar de considerar a existência de traços machistas, mesmo em menor grau, mas ainda, tristemente, presente.

Por isso a leitura do livro Rosa Luxemburgo - Vida e Obra de Isabel Maria Loureiro, lançado pela combativa Editora Expressão Popular se faz necessário, assim poderemos perceber e nos transformar internamente para criarmos relações definitivamente de igualdade.

A importância da leitura do livro também ganha corpo quando percebemos que a Rosa, nascida na Polônia em 1871 num berço de riqueza e judaico veio perder a vida com um assassinato na Alemanha em 1919, sendo que desde os 19 anos estava embriagada na luta socialista da classe operária. O legado de pensar e atuar na luta pela construção de uma sociedade sem classe sociais, com base na igualdade e organização de acordo com os próprios interessantes de quem realmente produz foi a tonica da sua vida de prática revolucionária.

O livro traz um material selecionado e parte escrita por especialistas no pensamento de Rosa Luxembrugo, fragmentos de artigos interessantes de suas análises da organização social, do socialismo, a espontaneidade das massas e o que pretendia a Liga Spartacus. Além de cartas escritas para dois amantes e uma amiga, onde podemos perceber a escrita inteligente e sua ligação com a natureza e o desejo de uma vida simples. Nessas cartas podemos perceber elementos que muitas vezes estão ausentes em nossa vida no pensar e na prática das lutas sociais, que deixar de lado a relação mecânica e inserir uma dose de coração em todos nossos pensamentos e ações se faz necessário.

Duas características importantes das notas Rosa para o socialismo é uma dimensão revolucionária e democrática.

A via revolucionária e não reformista, o que para muitos se tornou a polemica mais estridentes nos círculos socialistas, quando Rosa considerou que a luta pelo socialismo não poderia se deixar levar pelo radicalismo burguês na tal "calmaria" e o 'sucesso' parlamentar dos sociais democratas que estavam emergidos na sociedade alemã dos primeiros anos do século XX. A combativa Rosa trouxe o grito de que a reforma é um meio de alcançar a revolução social, mas não o fim. Em outra resenha voltariei ao tema, mas será no livro especifico em que Rosa discute o tema Reforma ou Revolução.

Outra característica ocorre no contexto das primeiras décadas do século XIX trouxe uma série de crítica ao modelo de vanguarda revolucionária proposto por Lenin. Segundo ela a idéia de Lenin de um grupo de trabalhadores dotados de consciência de classe, sendo que o restante da massa que sofre com a mazelas criadas pelo capilitalismo seria dirigida para a revolução socialista, assim a grande massa estaria destinada a mão de um comitê central o que afastaria uma ação realmente de acordo com os interesses da classe trabalhadora.

A resposta de Rosa a teorização leninista, que em 1917 ganhou força na Revolução Soviética, seria a via democrática dos conselhos de trabalhadores e soldados que "são organismos democráticos por exercerem simultaneamente funções legislativas e executivas, aqueles que fazem as leis são os mesmos que as aplicam e que administram a coisa pública. Com isso, é eliminada a separação entre dirigentes e dirigidos, base do autoritarismo, da burocracia, da dominação e da exploração no capitalismo contemporâneo." (página 36) Em Rosa encontramos os vivos ecos da I Internacional do Trabalhadores que trouxe a emblemática frase de que a emancipação da classe trabalhadora será obra da própria classe trabalhadora.

Uma preocupação latente nos escritos é "Com homens preguiçocos, levianos, egoístas, irrefletidos e indiferentes não se pode realizar o socialismo. A sociedade socialista precisa de homens que estejam, cada um em seu lugar, cheios de paixão e entusiasmo pelo bem-estar coletivo, totalmente dispostos ao sacrifício e cheios de compaixão pelo próximo, cheios de coragem e tenacidade para ousarem o mais difícil." (Página 61)

Ao fazer a consideração de os homens e as mulheres precisam passarem por meios educacionais revolucionários para despertar uma consciência social é fundamental para o triunfo de qualquer processo revolucionário.

Durante a leitura encontrei-me com dois pontos que me deixaram com uma atmosfera de "semi-fúria". A primeira encontra-se na página 31 em que Isabel Maria Loureiro escreve "Rosa não é uma anarquista que rejeita por princípio da organização". A autora foi infeliz, afinal as idéias e as práticas anarquistas não têm como princípio rejeitar a organização, muito pelo contrário basta olhar para as expressivas participações anarquistas seja na I Internacional, ainda no século XIX ou na Guerra Civil Espanhola que a central dos trabalhadores, a CNT, era de orientação anarquista e mantinha um número elevadíssimo de filiados.

O segundo ponto encontrei no próprio fragmento de Rosa, "A espontaneidade das massas", que trata a superação de um sistema absoluto não poderá ocorrer somente com um ato isolado como "uma única greve geral "prolongada", conforme o esquema anarquista."(página 54). Tenho de concordar com sua consideração, porém esse pensamento ocorreu (e ainda se faz presente em determinados aspectos) na corrente do anarco sindicalista. Sendo que diferentes práticas anarquistas existiram (e existem). Talvez no momento histórico que o texto foi escrito predominava-se essa visão anarquista.

Torna-se fundamental constatar que nas duas observações como uma busca de hegemonização no campo das lutas sociais. Mas acredito que a presente edição deveria preocupar-se em publicar simples notas como nesses aspectos para contribuir de maneira mais ampla na formação intelectual dos militantes sociais como se propõe a Coleção Vida e Obra.

A trajetória de uma vida de dedicação, analise, ações e amor pela construção de uma sociedade socialista são evidenciados nessa leitura introdutória em torno das idéias de Rosa Luxemburgo. Agora, em pleno século XXI, não vivenciamos uma atmosfera revolucionária, mesmo que alguns trostykista de Joinville querem nos fazer acreditar. Mas ainda vivemos um dia após dia dominado por desigualdades sociais, controle das vidas humanas nas cidades, assim aprofundar nossos conhecimentos em tornos das idéias e práticas de mulher, como Rosa, se faz necessário. Afinal, "Há todo um velho mundo ainda por destruir e todo um novo mundo a construir. Mas nós conseguiremos, jovens amigos, não é verdade ? Nós conseguiremos!" É claro que sim Rosa.

Um P.S: Enquanto procurava imagens para a presente postagem acabei visitando a página do Instuto Rosa L. por lá encontrei quase o livro completo que fiz a resenha. Vale a pena conferir:
Vida e obra de Rosa Luxemburg - Leia aqui
Rosa Luxemburg: 15 de janeiro de 1919 - Leia aqui
Rosa Luxemburg: judia, polonesa, socialista, revolucionária - Também feminista? - Leia aqui
Banco de textos de Rosa Luxemburg em português - Leia aqui


Nenhum comentário: