sábado, 13 de dezembro de 2008

O AI-5 passou por aqui.

O AI-5 (Ato Institucional número 5), decretado no dia 13 de dezembro de 1968, colocou a recusa de todos os direitos humanos fundamentais. As perseguições, ameaças, prisões, torturas e mortes ganharam um aparato jurídico. A história registra os anos seguintes como o momento de endurecimento da ditadura militar brasileira, apoiado por setores conservadores e empresariais da sociedade.

Quando se busca discutir a realidade histórica brasileira partindo da cidade que se vive à fala é de que a ditadura militar não passou ou o AI-5 não teve ecos, seja de resistência ou de até mesmo de apoio das lideranças políticas e empresariais.

A prática do esquecimento, da falta de informação ou do engano não poderá ganhar fôlego em nossas interpretações da história, especialmente, quando buscamos olhar a historiografia olhando daqui.

Por conta disso, precisamos apontar na história eventos quase silenciados na historiografia local. Como as ações do PCB (Partido Comunista Brasileiro) em Joinville[i] nos vinte e um anos da ditadura militar, a influência no movimento estudantil e a criação do Grêmio Estudantil do Colégio Celso Ramos, o braço do movimento operário que na Cipla de 68 organizou uma greve que os jornais da época silenciaram.

Outras tristes particularidades como a censura de manifestações artísticas da peça “Os palhaços”[ii], de autoria do Miraci Derreti, assim as ameaças aos militantes dos direitos humanos que lutavam no bairro Floresta, tendo como centro de esperança as Comunidades Eclesiais de Base[iii].

Os apontamentos acima da resistência a ditadura militar a história levar acreditar que os setores conservadores, a classe empresarial e política se articularam em defesa do golpe de 64 e referendou todas as ações posteriores como o AI-5. Podemos citar as enfáticas defesas do golpe militar no Jornal Anotícia como demonstra a professora Sirlei de Souza[iv], assim como a permanente vigília e ações do 13ª Batalhão de Caça de Joinville para manter a “ordem”[v]. E principalmente, o ex-prefeito Nilson Bender, entre os anos de 1966 a 1970 administrou a cidade e segundo Paulo Bauer:

Em 1965 Nilson Bender se elegeu prefeito e pensou a Joinville para os dias de hoje.(...) Sua fama se espalhou. Era tempo dos generais no poder. O presidente Castelo Branco mandou dizer que ele seria indicado governador de Santa Catarina. Castelo Branco morreu. Costa e Silva o sucedeu e manteve o projeto de fazer Bender o governador dos catarinenses. Mas este também adoeceu, e SC perdeu a oportunidade de ser governada por um homem que certamente ficaria na história com sua visão de construir com pessoas o progresso e prosperidade de sua terra.”[vii]

O que nos faz perceber a presença da passagem da ditadura militar com força pela cidade, tanto ao declarar apoio ao prefeito, chegando ao ponto de desenvolver um projeto de indicação para o Governo do Estado, ligando afinidade nos discursos e práticas do Exército em Joinville, a classe empresarial, a mídia local com seus editorais apologistas ao golpe.

Considerando a trajetória e a presença da ditadura militar na cidade, principalmente, a permanência de seus filhos e suas filhas históricas nos meios políticos, empresariais e assim como a permanência da mentalidade das perseguições, prisões e até processos contra os militantes sociais ou ainda os casos de violência policial e a sensação de impunidade, passando pela desigualdade social assustadora e a falta de qualidade para uma vida digna. A urgência do debate sobre os anos de censura, medo, prisões, torturas, mortes regados com a impunidade e a injustiça para todos-as aqueles-as que não estavam de acordo com a ordem da vida desigual e sem liberdade para que a história seja escrita com mais dignidade e respeito aos direitos humanos.

Maikon K.
Professor de História e membro do Grupo de Estudos das Idéias e Práticas Anarquistas.


[i] [i] Sobre o tema ler o livro “Os quarto cantos do sol” do Celso Martins. Editora da UFSC.

[ii] [ii] Sobre o livro visitar o link http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a1980963.xml&template=4187.dwt&edition=10094&section=898 - sábado, 13 de dezembro de 2008.

[iii] [iii] As lutas por direitos humanos nos bairros da zona sul de Joinvillle potencializou a existência de duas entidades distintas. A Fundação Pauli Madi (http://www.paulimadi.com.br) e o Centro de Direitos Humanos de Joinville (http://www.centrodireitoshumanos.org.br/) - sábado, 13 de dezembro de 2008.

[iv] [iv] Historias de (i)migrantes : o cotidiano de uma cidade / organizadora Sandra P. L. de Camargo Guedes. Ed. da UNIVILLE, 2005. É indicado a leitura do capítulo da professora Sirlei de Souza.

[v] [v] O exército e a cidade / Sandra P. L. de Camargo guedes, Wilson de Oliveira Neto, Marilia Gervasi Olska. Ed. Da UNIVILLE, 2008.

[vii] Retirado do link http://www1.an.com.br/2005/mar/09/0opi.htm - sábado, 13 de dezembro de 2008.

Um comentário:

Bruno disse...

Se o Ai-5 não esteve presente em Joinville ,com é destacado na mídia e na história oficial ,é no mínino um problema histórico ,afinal que cidade é essa que não é atingida por nada,nem mesmo por um regime ditatorial ?
A cidade ,e sua elite ,há tempos se esforça pra maquiar sua história.Apenas um exemplo ,cresci ouvindo do meu pai ,que não foi militante político ,que nos anos 70quando queria ouvir uma música (chico ,gil...) ele e seu amigo tinham que andar até um morro com a fita escondida ,quando era criança não entendia ,pensava mas que merda ...acho que meu pai era louco...