domingo, 8 de fevereiro de 2009

Até meu anti-herói...

A reprodução da entrevista abaixo é para afirmar que até o meu anti-herói erra.

Hoje é dia 16 de fevereiro de 2009 e resolvi alterar a postagem, geralmente não faço, mas hoje preciso esclarecer a ironia de afirmar que o meu anti-herói errou. Quando faço a afirmação do erro, quero brincar, fazer piada ou ironizar a opção de Ian MacKaye em votar em Obama.Afinal, Ian e suas bandas, seus amigos, a gravadora Dischord, o cenário da Capital dos EUA foram e são muito importante na minha formação como punk rocker.Porém, temos opiniões diferentes, não acredito na possibilidade de mudanças com voto, pelo contrário, tenho a esperança em mudanças por meio da organização dos reais produtores, que seja uma mudança de baixo para cima. Aí, venho e faço a piada e também afirmo que a entrevista é muito boa e vale a pena conferir os aspectos comunitários da proposta de Ian e todo seus amigos, apontando o contrário do individualismo sacana.



O líder do Fugazi, Ian MacKaye, em seu escritório em Arlington, Virgínia.


ESSA NÃO É UMA ENTREVISTA DO FUGAZI


Por Jarrett Dapier and Jeremy Gantz


“Acredito numa política de portas abertas. Pra mim, uma política de portas abertas é uma porta destrancada que pode deixar um demônio entrar de vez em quando, mas uma porta trancada pode impedir a visita de mil anjos.”



Ian MacKaye não se comprometeu nem um pouco. Conhecido por suas bandas dos anos 80, Minor Threat, Embrace e Fugazi, o cantor e guitarrista de 46 anos deu voz a uma geração de garotos e punks que cresceram na era consumista de Reagan. A Dischord Records, selo independente de Washington, D.C, que co-fundou em 1980, ajudou a comunidade musical local - que ainda sobrevive. Desde então, o selo lançou mais de 150 álbuns e singles.


Seja com o Minor Threat ou Fugazi, MacKaye oferece aos ouvintes um antídoto lírico para políticos e ganância. (“You are not what you own,” ele canta no hino de 1990 do Fugazi, “Merchandise.”)


Durante os anos, ele se comprometeu a participar de eventos não-comerciais de todas as idades e oferecer discos e ingressos a preços acessíveis. Como resultado, o músico de Washington deu a uma geração de músicos um modelo similar para uma filosofia de vida anti-corporativa.


Recentemente, MacKaye descobriu que o mainstream estava elegendo a identidade das bandas: em 2005, a Nike se apropriou da imagem da capa de um disco do Minor Threat num pôster promocional. A empresa mais tarde retirou a imagem e desculpou-se pelo uso não autorizado.


Desde o hiato oficial de 2003 do Fugazi, MacKaye lançou dois discos e excursionou com sua parceira Amy Farina, numa banda chamada The Evens. Mas com o nascimento de seu primeiro filho no início de 2008, os músicos não estão certos de quando — ou se — continuarão a turnê.


Num ano em que muitos eleitores repudiaram os excessos políticos na era Reagan, o site In These Times chamou MacKaye na Dischord House em Arlington, Va., onde ele trabalhou por 27 anos, (o restante da pequena equipe do selo não trabalha no local). Ele discutiu a natureza das mudanças políticas, a importância da comunidade e o que significa ser punk – e pai.



Você acredita que uma mudança política efetiva pode acontecer nos dois principais partidos?

Já que não consigo imaginar que a estrutura governamental desse país irá mudar nossa vida, só tenho que acreditar que uma mudança virá a partir disso. Se não acreditasse que uma mudança seria possível, nós não teríamos muito o que conversar. Eu realmente tenho visto essa mudança cultural de uma forma negativa. Mas se ela pudesse mudar para uma direção, certamente poderia mudar para a outra também. Acredito que os seres humanos são inteligentes, e que as pessoas em algum momento dirão: ‘Espere um pouco. Pare.’ Só tem que ser no momento certo.


O que mais chocou você nos últimos oito anos?

Na última década, houve uma história central a respeito de protestos quase totalmente ignorada pela mídia. Estou falando especificamente sobre o comportamento da polícia, que recebeu o poder do governo de controlar os manifestantes com violência. Minha experiência em protestos diz que a polícia está sempre no centro de tudo. Ela não é o foco da violência – é a causa dela. O fato de que há situações, como o que aconteceu aos manifestantes no CRN (Convenção Republicana Nacional) em St. Paul, e que esse país de 300 milhões de pessoas não podem dizer, ‘Isso está errado. Não foi isso que concordamos. Isso não é o que vocês deviam estar fazendo com as pessoas.’ Isso é chocante.


Como você escolhe em quem votar?

Minha posição é que esse país merece seu presidente. Seja votando nele ou não, ou simplesmente deixando que fraudem a eleição, nós temos o que merecemos. Mas o mundo não merece isso. Então, em quase todas as eleições, tenho um critério básico: meu voto vai para o candidato menos provável de levar o país para a guerra. É isso. É o principal. Porque a guerra é o impacto mais direto que esse país gera no resto do mundo. Vou lhe dizer o que mal posso esperar. É o dia em que um candidato viável diga que se opõe à pena de morte. Esse será um grande momento na história desse país.


Você tem grandes expectativas para o Obama?

Tenho esperança. Acho que a tendência básica do governo americano tem sido tão feia, calculista e trivial, que as pessoas pensam, “Essa não é uma empresa para qual quero trabalhar.’ Acho que a mudança para a humildade, graciosidade e inclusividade poderia reenergizar as pessoas, fazê-las sentirem como se o governo fosse um ambiente no qual possam realmente vir a participar. Essa é uma mudança na consciência americana.


Tornou-se mais difícil para você controlar sua música e a política que você defende?

Não, na verdade, me deu uma oportunidade incrível para lembrar as pessoas de minha política e idéias. De qualquer forma, você não pode controlar a música. Uma vez disponibilizada, está lá fora. Eu não posso dizer o que significam minhas músicas. Você decide o que elas significam para você. Sou responsável pela transmissão, mas a recepção só depende de você. Em termos de nossa imagem ou nome, tento ser um bom administrador. Não quero que as pessoas se apropriem do meu trabalho para vender seus produtos. Vejo a música como algo sagrado. E uso essa palavra de forma bem direta. ‘Sagrado,’ não em um sentido cristão ou religioso, mas como algo acima da desordem. Música é uma forma de comunicação que antecede a linguagem. A música brinca com a gente e nós brincamos com ela. É uma troca muito pessoal, íntima que evoca idéias e visualizações. Isso é sério para mim. E em algum momento, a música tornou-se pervertida. Tornou-se entretenimento. Uma forma de se ganhar dinheiro. Tornou-se a isca ao invés da recompensa. Eu acho isso perturbador.


Como essa mudança influenciou os músicos?

Nesse momento, o pensamento convencional é que a única forma de se ter uma carreira na música, é fazê-la com publicidade. Isso é um total absurdo. A forma de se conseguir uma carreira musical é compondo boas músicas, e então, as pessoas irão escutá-las. Os empresários têm uma atitude assim: ‘Vamos pegar a música e colocá-la em nosso anúncio. Dessa forma, as pessoas irão associar a profunda relação que elas têm com a música com nosso produto.’ Não é assim que a música deveria acabar. É uma tragédia alguns músicos pensarem dessa maneira.


O que você acha de bandas punks em grandes gravadoras?

Penso no punk como um espaço livre — é o espaço livre. É um lugar na música onde novas idéias são apresentadas. É isso que significa. Então, não posso aceitar que uma banda punk possa estar numa grande gravadora. Na minha cabeça, por definição, isso é antiético. Isso não significa que as pessoas na banda não sejam punks — elas podem muito bem ser. Mas as decisões que tomaram, visavam o lucro. Suas bandas se tornaram empregos comuns. Mas quem sou eu? Sou somente um cara. E as pessoas em algumas dessas bandas são minhas amigas. Não estou contra elas. Não estou com raiva delas. Só acho impossível de aceitar. Se elas estão numa gravadora, não são uma banda punk.


Na música do Embrace, “Spoke, você cantou: “No compromise. No co-opt. No giving out or giving up or giving in.” Você acha que você comprometeu ou mudou alguns de seus valores desde que você escreveu essas músicas, há 23 anos?

‘Mudar’ não é uma palavra que eu usaria, ‘evoluir’, talvez. Eu envelheci, e certamente ponderei mais. Tinha menos experiência na época, então mudei à medida que evoluí. Mas defendo as letras. Não há nada que consiga imaginar, nenhuma visão política que tinha na época que discordaria agora. Todas as letras que escrevi, não há nenhuma que escute agora e recue.


Você acha que mudou por se tornar pai?

Não, teve uma época em que eu me encontrava muito com outros pais, pessoas que eu não conhecia, e eles diziam coisas do tipo: ‘Bem vindo ao clube, cara!’ E eu comecei a pensar, ‘Em que tipo de culto esquisito eu entrei? Irei me tornar essas pessoas?’ Mas então percebi: claro que não. Sou uma porra de um punk. Essas pessoas não são punks. Não temos as mesmas visões. Eu sempre estive do outro lado, sempre fui um andarilho marginal. Estou, é claro, enojado pelo marketing de massa para crianças. Você pode imaginar meu horror quando descobri que não se pode comprar fraldas — que é literalmente um saco de merda — sem a droga de um personagem de desenho animado de alguma empresa nelas. É profundamente perturbador.


Em algum momento, a comercialização da infância deve afetar a imaginação das crianças.

Certo. Na minha vida, ler e reler histórias era importante para mim, e muito estava conectado com o que estava acontecendo no meu cérebro, e não o que estava acontecendo com meu cérebro. É a mesma coisa com a música. Esse é o ambiente que o meu filho vive agora — ele vive numa casa musical. Vamos ver o que vai acontecer.


Então seu filho está crescendo numa comunidade?

Essa é a idéia. Gostaria que fosse uma comunidade maior. Sinto-me sortudo por estar conectado a tantas pessoas, mas nossa sociedade, a forma como ela opera e é estruturada, é bem hostil com as comunidades. Tive muitos amigos que eram importantes para mim, mas muitos deles se isolaram de uma maneira alarmante. É triste. Sou muito apegado a convivência comunitária. Não quero dizer necessariamente viver numa comunidade, mais do que isso, acredito no valor na proximidade com outras pessoas e na política de portas abertas. Uma política de portas abertas sendo - uma porta destrancada pode deixar um demônio entrar de vez em quando, mas uma porta trancada, pode impedir a visita de mil anjos. Acho isso muito mais interessante, muito mais construtivo e saudável para as crianças — e adultos, na verdade.


Você pode falar a respeito de algum momento interessante nas turnês durante sua carreira?

Antes do Embrace [a banda que MacKaye formou em 1985], pensei em todos os shows que estava fazendo, na raiva e protesto do meu trabalho, e pensei, ‘Qual é o empurrão real desse trabalho? O que estou tentando alcançar?’ E disse, ‘Bem, estou tentando levar felicidade para as pessoas do mundo.’ Mas estava gastando muito tempo pensando em como fazer isso. Estava gritando e cantando sobre todas essas questões numa tentativa de levar felicidade, mas não estava particularmente feliz, e não estava deixando as pessoas perto de mim felizes também. Decidi que precisava aprender a viver com alegria e em paz.




*Jarrett Dapier é o editor assistente da In These Times. Jeremy Gantz é o editor de Web da In These Times, escritor freelance e editor


Publicado em http://www.inthesetimes.com/article/4073/the_margin_walker/
Em português saiu daqui.

Um comentário:

sindromederobgordon disse...

Opa Maikon! Cara, não entendi o comentário inicial acerca da entrevista com o Mackeye. Onde está o erro?