segunda-feira, 6 de abril de 2009

Um artigo no AN

No dia 1ª de Abril de 2009 saiu um artigo do Paulo Curvello, onde o tema era o centro da cidade e sua limpeza. No jornal de hoje, 6 de abril de 2009, saiu um artigo que escrevi.

O texto sofreu algumas alterações como no título, originalmente era "De volta à idéia da Limpeza do século XIX", passando para Bairros, de uma leve maneira altera a minha idéia base.

Ao passar turbilhão da minha vida e me deixar mais feliz publico a versão original.


6 de abril de 2009. | N° 365

Bairros, por Maikon Jean Duarte*

O artigo “Centro”, de Paulo Curvello, publicado na última quarta-feira neste espaço, não me causou furor. Ao notar suas palavras para solucionar os problemas do planejamento urbano de Joinville, com os argumentos de que a saída é a melhoria do Centro antes dos bairros e que é necessário deixar um “ar de limpeza e beleza”, surgiu na minha memória discursos e práticas mais assustadoras na cidade do Rio de Janeiro do final do século 19 e começo do 20.

A referência da lembrança é a obra “Cidade Febril”, de Sidney Chalhoub, que problematiza a destruição dos cortiços, as ações das figuras públicas, como o prefeito Barata Ribeiro, diferentes setores da polícia, engenharia, do exército e até mesmo da imprensa, para impor um Centro amparado na “beleza” e “higiene”, em detrimento do restante da população. Obra em que a classificação dos seres humanos como pessoas das classes “pobres” e “perigosas” estava embutida dos mais variados preconceitos. Essas pessoas eram tratadas como problema policial. O mesmo cenário servia para eliminação da políticas dos opositores como os anarquistas, socialistas e outros setores políticos e sociais.

A questão primordial não é a política de privilegiar o Centro. O que vale um debate, sim. Porém, o meu questionamento é: pensar que o estabelecimento do “ar de limpeza e beleza” deixaria quais lugares para as pessoas marginalizadas, que buscam no Centro da cidade um lugar de fazer a vida, seja no comércio ambulante, artesanato, limpar o centro é a saída?

Será que um “ar de limpeza” não criaria problemas sociais e desrespeitos mais crônicos aos que fazem a cidade? Como escreveu Chalhoub, “nem bem se anunciava o fim da era dos cortiços, e a cidade do Rio de Janeiro já entrava no século das favelas.” A solução do que é visto pela administração pública como problema acaba tendo como saída a criação de novas desigualdades. Resolver problemas urbanísticos via limpeza social e política faz transparecer nas entrelinhas de Curvello preocupações para aqueles que buscam um mundo diferente, em que seres humanos sejam tratados como iguais, não perante a lei, mas frente a frente com a vida.

*Licenciado em história


3 comentários:

Neander disse...

Eu tinha visto mais cedo no jornal. Lembrou-me um artigo meu que saiu ano passado, mas ligado ao livro do José Murilo de Carvalho "Os Bestializados".

Aqui em Guaratuba, depois de anos, está sendo uma via que deve desviar o transito pesado do centro da cidade. Desvia do centro mas joga no meio de uma comunidade, a comunidade mais pobre da cidade.

Enfim...

Filipe Ferrari disse...

O seu título anterior era muito historiográfico, Bairros é mais "jornalístico"...

Tu lembra uma "lenda urbana" que rolava por aí, eu não lembro se era Curitiba que enviava os moradores de rua para Joinville ou vice-versa, em dia de visitas internacionais...

Sendo verdade ou não (não duvido), vai no mesmo esquema...

Abraço!

Juliano Carvalho Bueno disse...

Maikon...Parabéns pelo blog...muito bem elaborado...é por aí o caminho