domingo, 31 de maio de 2009

Desconectado

As últimas semanas explodiram manifestações nas ruas para barrar o aumento da tarifa do transporte coletivo. Quando o tema começou a pintar na mídia, na verdade antes disso, participei das primeiras organizações e atividades da Frente de Luta pelo Transporte Coletivo, isso sem contar que nos últimos quatro anos estive envolvido organicamente com o coletivo local do Movimento Passe Livre.


Momentos antes de explodir as manifestações sai do MPL-Joinville e no meio tempo acabei deixando de participar das reuniões da Frente de Luta do Transporte Coletivo. Enquanto isso, alguns pensaram que estava tornando um pelego, um sujeito que deixou a luta, mesmo antes de envelhecer vertiginosamente.


As razões do meu desligamento do MPL-Joinville foram diversos, o que ainda não cabe fazer apontamentos públicos, porque não estou com condições de discutir e sustentar um debate. Em relação a Frente a razão da minha ausência foi por conta de um novo emprego, onde passei atuar nos bastidores da peça teatral “Histórias de Malasartes”, assim acabei pegando a estrada de Santa Catarina, caminhos que ainda estou seguindo.


No intervalo dos dias de estrada, acompanhado de Esperanza, fui numa manifestação para barrar o aumento, por lá um estudante fez o questionamento: “Resolveu aparecer?” Uma resposta agressiva veio da minha mente e acabou sendo abortada antes de sair da minha boca, felizmente a sensibilidade de Esperanza me levou a ficar somente mais uns minutos e para casa ela me levou.


A minha interpretação do questionamento foi de que se tratava de uma provocação, de alguém que deseja ferir. O fato é que me feriu.


O fato maior é que despertou a minha reflexão de como estou desconectado das lutas sociais em torno da democratização ao acesso no transporte coletivo, buscando a inserção de uma lógica pública. Os meus pensamentos e os meus desejos de mantém vivos, porém estão desconectados da prática cotidiana da luta.


A minha pergunta é o que levou a me sentir desconectado?


Hoje, nesse tedioso e triste domingo fora da cidade, um, dois ou três apontamentos passaram a clarear na minha cabeça.


Um deles é a dificuldade de manter o meu envolvimento nas lutas sociais e viver o lado profissional, já que sou licenciado em História e gostaria de lecionar, estando a afastado do chão da sala de aula por falta de vagas, estou buscando novos rumos para me manter financeiramente e buscar realizar os sonhos pensados com duas cabeças e dois corações.


O outro apontamento se trata de que preciso caminhar no tal mundo acadêmico, preciso canalizar os meus estudos para tentar um mestrado, aí preciso sistematizar temas, tempos e afins, onde tenho encontrado uma grande dificuldade, já que durante a minha graduação me envolvi com o movimento estudantil, busquei meios financeiros para pagar as mensalidades e acabei deixando de lado à experiência de um projeto de iniciação cientifica, onde poderia ganhar uma experiência fundamental para seguir um passo no famigerado mundo acadêmico.


O terceiro apontamento faz sentindo com “cuidar de mim”, que tantas pessoas falaram nos meus últimos sete anos. Lembro do meu Marcio, amigo do punk, comentando após a greve na Cipla que eu deveria cuidar mais de mim, lembro do Marcio, um mês seguinte da morte do André, dizendo quando o Nalvan bateu na porta da casa dele para noticiar o falecimento do nosso amigo André, a sensação – do Marcio - era de que eu tinha ido embora. Na minha memória está a grande presença do Marco e suas longas horas ao redor de uma mesa de bar, ouvindo e falando, onde não estava exercendo um papel de psicólogo ou qualquer coisa do tipo, mas exercia o papel que compete a ele. Um grande amigo aquele que choro de saudade. Lembro de Esperanza dizendo doces sentimentos, onde nossos sonhos passaram se conectar ao serem expressos no pé do ouvido.


O momento é para a minha reflexão e sabendo que preciso cuidar de mim, ainda mais que abri a minha vida, abri o meu coração e me deliciando com cada momento.


No fundo estou em partes desconectado, momentaneamente desconectado e não estou indiferente aos problemas da cidade e as suas esperanças.

Um comentário:

Filipe Ferrari disse...

Cara... Tudo na vida nos suga. A noite, a cerva, o estudo... Com a luta, não seria diferente, mas de que adianta lutar, lutar, lutar e não viver tudo isso? Talvez não seja exatamente isso que você esteja passando/pensando, mas creio que a coisa é por aí. Não digo para largar a vida lutadora, mas a todo momento é necessário um abrandamento da coisa.

Outra coisa, a luta, e muitos daqueles que perambulam pela mesma, são efêmeros, chegam e partem, são poucos os que ficam (como os que você citou no post), e esses você sempre vai ter ao seu lado, além da luta e das ruas.

Entendo esse post como um desabafo, não como uma justificativa, pois justificativas não são necessárias quando se trata de vida.

A nostalgia da luta só vai perseguir aqueles que não a fizeram realmente, que buscaram ser heróis. A cada momento surgem novos desafios e lutas, de acordo com a nossa nova experiência e capacidade.

Abraço meu amigo, "a luta continua", haha!