quarta-feira, 14 de outubro de 2009

João Antônio: do Bairro de lá ao de cá

De porrada em porrada, acabamos virando colecionadores.” João Antônio

Prefácio de poucos pensamentos (o prefácio deixa no ar que é um trabalho de qualidade e debate danado de bom.)



João Antônio foi um escritor que desconhecia. Meus amigos ditos leitores nunca comentaram dele, ao mesmo tempo não tenho o hábito de ler as revistas dedicadas ao “pensamento brasileiro” para saber de quem se tratava. Acabei trombando com os escritos do João Antônio por conta de uma fotografia de um bar carioca, ao menos a legenda indicava a origem do estabelecimento comercial, acompanhada de um fragmento escrito pelo dito cujo.

A pouca referência era o suficiente para perceber a presença de uma paixão avassaladora as cidades, as praças, os bares, as pessoas e os hábitos. É uma merda não achar a referência, queria mostrar a você como a frase era composta por uma baixa quantidade de palavras, o suficiente para dizer muito.

Os escritos de João Antônio não passaram a ser a minha busca, nem cheguei a procurar nas livrarias de usados. Ficou guardado na minha memória que um dia poderia lê-lo. A velha tradição de quem não procura acha acabou se confirmando, isso foi durante a turnê catarinense “Histórias de Malasartes, um malandro de coração.”. A compra de “Ô Copacabna!” aconteceu num pequeno sebo de Itajaí, o valor pago não foi mais de R$ 3,00. O preço em conta porque a dedicação da loja de usados era voltada as publicações pornográficas. Anote a dica: Quando encontrar uma livraria de usados onde ocorrer uma concentração de material pornográfico entre e vasculhe, pois entre peitos, pintos e bucetas a possibilidade é grande de encontrar um livro interessante por um valor baixíssimo.


Do Bairro de lá ao de cá

Do bairro de lá, Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, encontro particularidades próximas às realidades do bairro de cá, da cidade de cá. Afirmo ao ler “Ô Copacabana!”, onde logo de cara o João Antônia solta a frase “Os homens, lá em cima, mexem os pauzinhos, sapecam leis e nos aplicam os espetos. Ficamos sambados, prejudicados, lesadinhos.” Uma porrada suficiente para arrematar o meu coração libertário.

No primeiro momento você poderá imaginar o livro como libelo esquerdista produzido na década de 1970, ainda mais quando pinço a frase no parágrafo anterior, deixe de lado a bobagem. Ao menos que você deseja reduzir a condição de “subliteratura” por encontrar qualquer fragrância política nas linhas do autor, caso seja assim é melhor fechar as páginas de qualquer livro do Machado, da Clarice ou de qualquer outro. Afinal, vida e arte são cruzadas com a política, sem chance de separação, até mesmo os baluartes da posmodernidade não conseguiram a proeza. Sim, afirmo a impossibilidade da separação.

A escrita de João Antônio é rica por traços populares, do dia a dia. Faz da literatura um palco do vocabulário de um canto da cidade do Rio de Janeiro, o bairro Copacabana, cortando os mais variados sotaques daquelas bandas, do gringo ao nordestino ao sulista, que faz do lugar um ambiente de diferentes vivências para o branco ao negro, do gay gringo ao gay pobre e sofrido, da madame fresca com o cãozinho ao tiozinho solitário, dos meninos de rua as crianças bem tratadas, dos errantes de terno e gravata na praça pública, da ida ao mercado numa noite de excessivo calor, os garotos de cabelos queimados do sol até as garotas de olhos bem abertos aos salva-vidas e tantos outros aspectos. Onde o conflito é sutil ou brusco, onde os espaços privados ou públicos têm utilizações diversas de acordo com o horário, sem existir a necessidade de uma placa indicando nada o que fazer, as regras de convivências são as leis invisíveis, ambiente onde a oficial “sacanocracia” do prefeito, “que ninguém votou nele”, poderá violentar as regras do bairro, mas não conseguirá destruir.

E no bairro, como na nossa cidade, só cantamos as glórias. Do fiasco, ninguém fala.” É uma frase categórica para dizer que a cidade como um todo, não deve ser tratado como um ar romanceado, distraída das suas realidades contraditórias, em determinados aspectos é preciso dar uma porrada na cara e na seqüência – ou até semanas depois – levar uma bordoada sem tamanho, sem deixar a clareza que o papel de dar o tapa é nosso, das pessoas.

Nos caminhos do Bairro nos portamos como um torcedor, que segundo João Antônio “Ao torcedor, parece não interessar, no fundo, ganhar ou perder. O que conta é o sofrimento. Não se trata de um homem a serviço de um sonho, ideal ou missão. É um homem a serviço da paixão. Um prisioneiro.” Enquanto, é preciso buscar uma ponte entre a paixão e os sonhos, onde nossos pés estejam cravados em nossos lugares de vida.

Ao concluir a leitura do livro pairam nas minhas divagações como é complicadíssimo articular paixão as linhas acadêmicas para discutir criticamente a nossa realidade, pois para a ciência acadêmica tem a necessidade desapaixonar o que é mais caro a mim. João Antônio ao problematizar-polemizar o tema do Bairro e da cidade vai à contramão de todo academicismo, nos oferece de lambuja a literatura como a melhor saída para fazer a discussão, sem respostas certeiras, mas doses necessárias de questionamentos e reflexões sobre o bairro de lá e de cá.

3 comentários:

Vinícius Ferreira disse...

me parece que encontraste um alguém muito parecido contigo por apenas R$ 03,00 !
inquietudes parecidas pelo menos.

um abraço
Vini

Vinicius da Cunha disse...

...

Vini

Anônimo disse...

Vini da Cunha, meu caro chefinho.... o que vc quis dizer com "..." ?hehehe


Vini Ferreira, vc tem toda razão. to encantado com o João Antonio.
é mto bom mesmo.

abração.
maikon k