segunda-feira, 20 de julho de 2009

Justificando o injustificável ou justificando o que não precisa justificar.

Faz uma semana que assinei o Jornal A notícia, receberei a edição de papel enfianda num saco plástico de segunda a segunda. Detalhe importante por quatro dias os entregadores do jornail deixaram de entregar na garagem da casa de minha mãe. Alegação era que não encontravam a minha casa. Acredito que seja um fato verdadeiro, já que vivo na região de fronteira entre o Bairro Floresta e Petrópolis, uma verdadeira região de aduanda perdida.


O meu ato de assinar o jornal A notícia foi questionado por amigos e amigas. Os dedos foram apontados sem ao menos expressarem um simples “Por que?”. Boa parte dos-as questionadores-as não respondi, fiz um o comentário zuadobicho, to ficando velho. Aí, nada melhor do que assinar o jornal”.


Eu tenho razões para assinar um dos veículos do perverso Grupo RBS, que domina o mercado jornaleiro nos dois Estados mais ao sul do Brasil, que por uma boa parte das pessoas com visão crítica fazem ataques com boas argumentações. Por exemplo, veja a interessante Campanha Zero Fora no Rio Grande do Sul.


Bem, preciso registrar as minhas razões para despachar as pressões dos amigos e também para sair da minha cabeça a pergunta “Como fiz a m*rda de assinar o AN?”


Vamos aos fatos.


Era uma segunda ou terça-feira, assistia filme com Esperanza ou dormia após o almoço. O telefone da casa da minha mãe tocou e o marido da mãe me chamou, era para mim, já que uma mulher chamada Débora gostaria de falar comigo. Pensei que era a Débi, uma grande amiga, mas não era. O motivo da desconhecida Débora era vender uma assinatura do Jornal A notícia pelo valor mais ou menos de R$ 30,00 por mês. Sem pensar muito assinei.


Ao desligar o telefone Esperanza comentou “Me diz por que assinar o jornal se você lê na internet?” Eu fiz corpo mole, não respondi. Simplesmente disse para voltarmos assistir o filme ou voltar ao sono. Enquanto a razão de asinar a versão de papel diminui o meu tempo na frente do computador e ao mesmo tempo a minha mãe e o marido da mãe poderão ler o jornal, na mesma medida o meu avô e a minha avó como minha tia, o meu novo tio Rodrigo e meus outros dois tios. Fique calmo-a leitor ou leitora, toda essa rapaziada não mora na mesma casa, mas são moradores do mesmo Bairro.


O segundo questionamento foi de um amigo jornalista. O cara escreveu via msn, “Assinou o AN ? É um jornal pelego, que tem compromissos com a superficialidade e ainda ligado a RBS....” e assim foi toda argumentação do meu amigo. Em 90% concordo com ele.


A resposta para ele também foi evasiva. Então, escrever as razões para ele é ao mesmo tempo aprofundar as respostas para Esperanza, para a minha cabeça e para quem mais resolver questionar o meu consumo de informação.


Já me falaram que sou típico “esquerdalha”, só não uso uma camiseta do Che e nem faço campanha em defesa de Cuba – ufa, um pingo de bom senso -, por isso resolvi romper com o meu hábito de ser um típico “esquerdalha” e assinei o AN. Gente, esse parágrafo é uma piada sem graça.


Na casa da minha avó e meu avô durante anos era entregue o Jornal A notícia, onde desde criança gostava de ler as tirinhas, ria com o “Cão Tarado”, acompanhava os lamentáveis jogos do Jec durante a década de 1990, lia o caderno Anexo e quase nunca ia aos eventos, já que não tinha dinheiro e ninguém para me acompanhar, às vezes conversávamos entre família assuntos do jornal. E no dia de domingo sempre era um “estresses” familiar para saber com quem estava tal parte do jornal. Naqueles tempos, 1980 e 1990, a casa da minha avó e do meu avô era residência de pelo menos 6 pessoas e de quebra todo dia tinha um neto perdido almoçando por lá ou um filho visitando. O resultado era um fluxo gigante de pessoas em busca de alguma parte do jornal e variadas memórias familiares.


Quando a grana ficou curta a minha família deixou de assinar o jornal. Mas eu continuei indo, todos os dias, até a oficina mecânica onde meu tio mais novo trabalhava – ele ainda trampa lá- para ler o jornal. Por lá, os papos sobre o que saia no jornal era mais intenso e engraçado, já que se comentava de maneira “piadistica” de alguns paspalhos que estavam na Coluna do João Carlos Vieira ou se falava muito mal do zagueiro Fonseca do “incrível” time do Jec daqueles anos noventa ou ainda se comentava do salário do lateral direito Jairo Santos.


Além da razão apoiada na questão da memória daqueles tempos de criança e adolescente, tenho outras razões.


O meu primeiro interesse, ainda criança, era com o caderno cultural “Anexo”, mesmo hoje sabendo que o jornalismo cultural brasileiro é cheio de problemas, mantenho o meu interesse com o “Anexo”, já que existe uma diversidade de temas tratados, buscando uma cobertura do que se passa por aqui e também em outras regiões. Enquanto no jornal “Notícias do Dia” é extremamente local, , já a “Gazeta de Joinville” simplesmente ignora os diferentes seguimentos culturais e artísticos da cidade, quando aborda são os eventos já institucionalizados.


Nas outras coberturas jornalísticas o Jornal A notícia deixa a desejar como no aspecto do que se passa em outras cidades do país e do mundo, é muita reprodução das Agências Nacionais ou Internacionais de Notícias, o que é um saco, ainda mais nesses tempos das mídias on-line, em que posso ler da fonte primária.


A cobertura de política local são as páginas que circulam as opiniões discutidas com mais entusiasmos na cidade, basta perceber como o jornal está nas mãos dos homens de direita em bares como Jerke, Zeppelin e tantos outros espaços para os reacionários oficiais de Joinvas. Aliás, onde a “esquerdalha” insiste freqüentar.


O jornal que assinei é antigo. Está na casa dos oitenta e seis anos, assim tem uma ligação com a história da cidade de maneira tremenda, como sou formado em história isso torna importante acompanhar as mudanças do jornal, ainda mais quando tenho interesse em “História do tempo presente”, onde busco manter o foco nas discussões sobre a ditadura militar na cidade, planejamento urbano nas décadas de 1960 e 1970 e assim, quem sabe, buscando perceber as permanências do que o jornal falava naqueles tempos sombrios e o que fala hoje e também as opiniões dos-as seus-as leitores-as de hoje.


Então, as minhas necessidades que sustentam as razões são políticas, profissionais e acima de tudo são de memórias de tempos cercados por familiares, em momentos que a certeza de um trabalho não era a preocupação latente e a definição do que fazer em caso em incêndio não ocupava todos os segundos a residência. Eu quero ler que parte da cidade diz e que parte da minha memória ainda tem para lembrar.