quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Casa de madeira, de alvenaria e a memória

Marcelo Rubens Paiva deve ser o cadeirante mais pop do Brasil. O mesmo Brasil que ainda não tem cidades as pessoas circularem de acordo com suas necessidades. Mas pô, desde quando Marcelo Rubens Paiva passou a freqüentar o meu imaginário?


Anos após anos na casa dos meus avos tinha uma estante ocupada pela bíblia, televisão, livros de faroeste, enciclopédias e os livros da coleção “Círculo do Livro”. A coleção em questão todo mês fornecia diversos livros para as famílias brasileiras, acho que era essa a campanha publicitária, entre as doses mensais de cultura estava um livro com duas taças de champagne destroçada, indicando um “Feliz ano velho” e o nome de Marcelo Rubens Paiva, o escritor.


Antes da Copa de 90 ainda era uma criança e pensei em ler o livro, não o fiz. A capa produzia uma possibilidade de tristeza para o ano novo. Naqueles tempos não queria correr o risco, pois o ano novo era mágico. O dia certo para encher a pança com a torta de queijo da minha avó, a certeza de que meu avô, minha avó e a minha mãe estariam até tarde de noite de pé esperando os fogos explodirem no céu do Bairro Floresta.


Quatro Copas do mundo aconteceram. A estante se foi, a casa da minha foi destruída e uma nova feita, agora de alvenaria. No meio disso o livro do Marcelo Rubens Paiva se perdeu, o mesmo aconteceu com os hábitos dos meus avos ficarem até tarde da noite acordados para olharem as explosoções no céu do Bairro, da minha avó de fazer uma torta de queijo. Nas últimas passagens de um ano para um novo ano a magia não se faz presente. Tudo virou memória da minha infância.


Há tempos conversei com uma leitora do “Feliz Ano Velho”, ai fiquei sabendo que o enredo se tratava - também - da ausência paterna. Em dias como o de hoje, onde parte da minha cultura material está destruída, restando fragmentos de memórias, a leitura do livro de Marcelo Rubens Paiva poderia despertar uma paz as minhas memórias da ausência paterna.