domingo, 15 de novembro de 2009

Um réu confesso (ou: a necessidade de mudanças)

“E esse [café] é último sobrevivente, o último dos moicanos doscafés nos quais eu fui formado. Minha universidade foram os cafés de Montevidéu, foi aqui que aprendi a arte de narrar, a arte de contar histórias. (...)aprendi muito mais escutando. Desde muito menino aprendi que, por alguma razão, nascemos com dois ouvidos e uma única boca.”

Eduardo Galeano (1)



Eu não tinha o hábito de ouvir. Gostava de falar, de ser ouvido, jurando que convencia. O abandono da prática de falante foi ocorrendo com passos devagarinhos, ainda mantenho uns quêzinhos de falante. Viu, sou um réu confesso. Ainda bem, já que dizem ser uma importante condição de mudança.



Assumir a condição de réu em processo de mudança não impede de sentir constrangimentos das encrencas, das quantas pessoas importantes deixei de conhecer, de ouvir. Quantos inimigos de classe, seja econômica ou cultural, não ouvi boas histórias de um passado próximo, de uma rua próxima do meu bairro, de uma vida que não tive e nem pensei querer.



A necessidade de mudança de falante que jurava convencer se fez presente no primeiro ano da graduação em história. Felizmente, nos outros quatro anos de graduação universitária ocorreu o aprendizado de ouvinte, era o momento que ouvia muita merda de professores-as portadores de diferentes títulos acadêmicos. Na maioria das vezes ficava em silêncio, somente não levava o desaforo para casa quando as merdas ditas faziam referências ao anarquismo, ao tema cidade, aos direitos humanos, a história da América Latina e as posturas constituídas no CALHEV. Aí, batia o pé e ia ao enfrentamento acompanhado de outras pessoas ou solitariamente, como um peregrino num terreno que tem todos os domínios, ao menos jurava possuir.



A sala de aula não se objetivava a construção do aprender a ouvir. Estava somente desenvolvendo o aprender falar. Felizmente os corredores, o bar, o ponto do zarcão, as salas do CALHEV, do DCE, a Biblioteca, a sala de informática, os banquinhos do campus universitários existiram, por lá se aprendia, se construía a condição de ouvinte, aprendizados não registrados no meu histórico escolar institucional.



Além dos ambientes informais de formação dentro do campus universitário, os diferentes lugares das lutas sociais na cidade foram válidos e dinâmicos a formação – ainda em processo – de ouvinte. Em diferentes momentos ouvir foi dolorido, ora por ser verdade ora por serem mentiras de pessoas equivocadas, de babacas. Continuar a contar sobre os aprendizados nas lutas sociais poderá deixar no ar um pingo de falante que jura convencer. O que não desejo mais.



Um outro campo de aprendizado foi com os amigos e amigas de diferentes idades, dos socialistas radicais aos humanistas liberais. Aí sim, fui o maior protagonista dos ranços mais chatos, inconvenientes e insuportáveis de típico pretenso falante que jurava convencer. Como a relação não era só política, mas de amizade, me fazia portador do título velado de chato, inconveniente e insuportável. No final das tentativas de persuasão ainda tinha a conta paga, uma carona até em casa, uma palavra de conforto ou um delicado abraço. Afinal, eram os amigos e as amigas.



Ao campus universitário não pretendo voltar, então o aprendizado de lá está eliminado. Ainda estou nas lutas sociais e a relação de amizade a cada dia floresce mais que nunca, o que ninguém destruirá, seja uma pessoa supostamente amiga, no fundo mentirosa, seja uma Yeda Crusius e sua polícia política e menos ainda os políticos canalhas e empresários fascista da cidade. Todos os exemplos repressivos são próximos daqueles que realizam a destruição em massa dos cafés onde Eduardo Galeano aprendeu a ouvir.



O fato é que os meus espaços não serão destruídos. Pois são os lugares de encontro com as minhas mudanças pessoais, os meus encontros com a esperança, as possibilidades de transformações cotidianas, lentas, mas vivas e necessárias.


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(1) http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=revista&id=134&iditens=393

Dia dos fodidos

É um domingo para comemorar. Dia da independência, da passagem da monarquia para a república. Não temos nada do que comemorar. Aliás, a história demonstra que foi só mais uma transição política de uma elite para outra, enquanto os fodidos eram fodidos cada vez mais. Na história podemos identificar diversas revoltas ocorridas nas primeiras décadas do Brasil República como a Revolta da Vacina, Canudos, Contestado, Greve de 1917, mobilização do sindicalismo revolucionário e tantos outros levantes populares. Outro fato são as cidades como lugares símbolos dos processos de margilização e exclusão, a formação das favelas, as expulsões das pessoas fodidas, tudo em nome de uma cidade mais “limpa”, prática ainda aplicada como política pública. Se devermos comemorar que seja lembrando dos fodidos reclamantes, dos fodidos que tentaram foder com a vida de quem fodia.