domingo, 7 de fevereiro de 2010

Considerações de uma entrevista

O rádio, ao menos pra mim, tem um poder fascinante. A constituição desse poder se deu quando ainda era criança, todos os dia se ouvia rádio na minha casa. Fortaleceu na minha adolescência, ao lado de amigos de tínhamos uma pequena estação de rádio pirata no Bairro Floresta. Aos sábados eram executados programas, geralmente dividido uma hora por pessoa. Eu era responsável pelo programa de rock, infelizmente fui “demitido” por me recusar a tocar “rock clássico”. Sabe, na época, não admitia tocar coisas chatas como Yes ou Legião Urbana. Essa demissão trouxe um alívio a todos da minha casa, por lá se tinha receio de que a rádio pirata derrubasse um avião, quem sabe o acidente fosse causado pela barulheira da programação escolhida por mim.


Na passagem do meu tempo de vida as estações de rádio continuam marcando presença, hoje escuto programas transmitidos pela internet. Menos quando estou na cozinha, lá ainda resisti um aparelho de rádio, como é na casa de muitas pessoas. O fascínio ainda se faz presente, ainda mais quando se vai num estúdio de uma rádio. Eu tenho ido por meio de outras experiências: nos últimos anos estive em diferentes programas concedendo entrevistas. As razões foram por conta da questão do transporte coletivo, a presença da ditadura militar em Joinville e por conta do blogue que você lê nesse momento.



A última entrevista ocorreu no último sábado. O programa “Manhã da Globo” apresentado por Jota Martins, levantou a pauta sobre os blogues da cidade, querendo saber quais as razões para se manter um blogue, o que se escreve nesses espaços virtuais e fazendo um debate com ouvintes do programa. A iniciativa do programa é inovadora, é o primeiro meio de comunicação tratar dos blogues, ao menos é o que tenho notícia na cidade de Joinville. Em outros veículos de imprensa foram lançadas notas, mas geralmente a fonte não foi citada, como em diversos casos realizados pela Gazeta de Joinville, que hoje não vale pena nem estender a discussão.


Eu fui um dos convidados para falar sobre o meu blog. Também esteve presente o blogueiro Juliano. Não vou reproduzir o papo por aqui, foi bem extenso. Mais três pontos chamaram atenção:


1ª) O blogueiro Juliano comentou que a migração da classe média paulista e carioca possibilita  mudanças na mentalidade cultural da cidade de Joinville. Não podemos cair num determinismo tremendo, como de que “cultura” e “arte” das pessoas de São Paulo ou Rio tem qualidades “superiores”. E que a migração de outros lugares produz uma “cultura inferior”. Ou pior, existe a possibilidade de cairmos no discurso de que às pessoas do Paraná e nordeste não são possuidores de cultura. Em Joinville, existem  variados exemplos de pessoas originárias de diferentes lugares do Brasil, cujo todo seu fazer é encharcado de cultura e de arte, basta olhar aos projetos realizados Jardim Paraíso, Profipo, Itinga e demais bairros.



2ª) A ouvinte Lesita Machado enviou a seguinte mensagem ao programa: “Estou escutando a entrevista. Parece quem nasceu em Joinville, como eu e minha família, nunca fizeram nada pela cidade e ainda parecem serem considerados atrasados.” É preciso separar as opiniões, não confundir a minha opinião com a do Juliano. O que é mais visível é a presença, entre as pessoas de Joinville, que qualquer discurso dissidente sobre a cidade deve ser censurado de alguma maneira. É como se o slogan “Ame ou deixe-a” fosse a única verdade. Outro ponto, é que a minha fala, no programa e no blogue, nem sempre aponta as pessoas como “culpadas” pelos problemas da cidade, SEMPRE mantenho o ponto de vista das pessoas têm o real poder de transformação da cidade. É claro que, em momentos históricos ocorreram silêncios de grupos da cidade, o que ocasionou a manutenção de desigualdades e explorações. No meu ponto de vista, a possibilidade de mudar o rumo da cidade está em nossas mãos, fazendo o direito à cidade existir de fato.



3ª) O fato do Jota Martins e toda sua equipe promoverem o debate sobre blogue é de grande valor. O que é mais importante é perceber o programa “Manhã da Globo” está realizando um jornalismo como espaço de debates. É um espaço privado de comunicação que tem características democráticas, buscando disseminar diferentes olhares sobre a cidade de Joinville. Um exemplo está aí, basta conferir o programa nas manhãs de segunda-feira a sábado. Uma pena a Rádio Udesc -que é pública- não promover essa linha de jornalismo. As comunitárias também não realizam esse papel.


As minhas experiências nas rádios fizeram sustentar a necessidade da criação de uma versão de "rádio" do blogue Vivonacidade. Vontade já compartilhada com outros amigos e outras amigas.  A experiência levaria muito tempo, que estou precisando utilizar em outras atividades. O importante é que a inquietação se faz presente, seja na maneira de sentir, pensar, refletir e escrever sobre a cidade. E se  faz mais presente, o fascínio de discutir a cidade nas ondas das estações radiofônicas.