terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Notas sobre o carnaval em Joinville

As notas foram produzidas durantes os momentos de falta de luz na casa de minha mãe. A redação foi rabiscada num caderno de notas e dias depois foram transcritas ao computador portátil, em mais um dia de falta de luz.



Nota I


Os dias 12 e 13 foram marcados pelo carnaval nas ruas centrais de Joinville. A realização do evento ficou na mão da LCAJ,  Liga Carnavalesca de Joinville, FCJ, Fundação Cultural de Joinville, e PMJ, Prefeitura Municipal de Joinville, o que já vem acontecendo nos últimos anos. Nesse ano ocorreram mudanças. Um palco gigante foi montando na Praça Dario Salles, ao lado do Ginásio Abel Schultz. As escolas de samba e os blocos carnavalescos saíram da Rua Rio Branco até a Praça Dario Salles.


O transcurso passou na frente da Rua das Palmeiras e do Museu Nacional da Imigração e Colonização. Ambos os espaços historicamente são de dominação da elite cultural e econômica de origem germânica. Elemento importante na exclusão da presença indígena, dos portugueses e tantos outros povos participantes do processo de imigração e colonização na exposição do Museu Nacional da Imigração e Colonização. Forçando a identidade de cidade germânica. A constituição do acervo, sob controle da atual direção do Museu,  poderia alterar, fazendo do espaço do Museu como um mosaico diversificado da história da cidade, fato que em algumas práticas já estão ocorrendo.


De qualquer maneira, presenciar as pessoas da cidade de hoje dançando, levando suas tristezas, suas alegrias e contradições a Rua Rio Branco, em pleno desfile de carnaval tem um peso simbólico de grande importância na possibilidade de mudança da mentalidade cultural.


Um ponto primordial, ao menos no meu ponto de vista, é que atual gestão da PMJ e da FCJ, nem Rodrigo Bornholdt, ex-presidente da FCJ, não tem o direito de se afirmarem como “ó do bogorodó” do carnaval da cidade Afinal, um cenário de samba na cidade se faz presente, isso há anos. Facilmente identificável nos clubes, bares dos bairros e nos programas de rádios. Cenário este que promoveu as raízes e a vida do carnaval nas ruas da cidade. No primeiro momento, o que nos resta é propagar uma homenagem a todos os homens e todas as mulheres que mantêm a dedicação, o ritmo e a dança no samba do cotidiano da cidade.  



Nota II


Joinville não é uma cidade para essas coisas de carnaval. É uma cidade alemã


A frase foi dita por uma amiga numa noite de carnaval. Ela escutou ao ir visitar uma empresa em que vende sua força de trabalho. Ela exerce o papel de subalterna da subalterna da subalterna, logo mais uma participante da classe dos-as fodidos-as da cidade.  Dentro dessa configuração classista, fez a escolha do silêncio e deixou para resistir em outro momento e de outra maneira.


Voltando a frase. O interlocutor da minha amiga provavelmente vive num casulo cultural pretensamente germânico. Não podemos desconsiderar os traços da cultura germânica e da manutenção de diferentes aspectos do grupo étnico dos teuto-brasileiros. Porém, fazer afirmação acima é de uma tremenda ignorância, já que desconhece a trajetória do carnaval na cidade. É uma recusa da prática cultural experimentada em diferentes lugares do mundo. Inclusive em Joinville, naquela cidade dos anos 1920, quando os próprios participantes da elite germânica realizavam os seus bailes de carnaval. Registrado pelo Jornal A notícia na matéria sobre a exposição “Vai Passar”.  O detalhe é que a exclusão estava presente nos bailes, ao menos é perceptível quando somente as famílias tradicionais eram permitidas participarem. “Olha o preconceito, aí gente.” Quem sabe, seja o mesmo preconceito que motive o interlocutor da minha amiga.


Nota III

A diversidade é uma realidade da cidade. Basta entrar num zarcão da zona sul e ir ao terminal da zona norte. No trajeto você encontrará trabalhadores-as a caminho das fábricas, vendedoras das lojas centrais, estudantes negros a caminho da escola. As falas se contrastam nos ouvidos dos transeuntes, é sotaque do norte do Paraná e o estudante da escola técnica Tupy rindo da fala do migrante, é o gaúcho de Porto Alegre falando com expressões carregadas, é um descendente de alemães comentando a visita nas casas dos avós na estrada anaburgo, é o casal homossexual trocando olhares quando o desejo era um beijo, mas a moral alheia causa impedimento do encontro dos lábios. A diversidade não se faz na santa paz de deus. O conflito entre a diversidade está constituído no trajeto do zarcão.


O entendimento de que a diversidade não deve ser escamoteada, porém identificada, problematizada e levando em conta a projeção de um futuro de respeito e prática qualificada como direitos humanos das pessoas da cidade estão vivos. A Associação Arco-Íris, voltada a questão do direito dos gays, lésbicas, travestis, e bissexuais , assumiu o papel de organizar a dissidência rebelde no campo da sexualidade da cidade. O carnaval ganhou o Bloco da Diversidade, segundo promovido pela Associação.  O carnaval já era colorido, agora ficou com as cores da bandeira arco íris da defesa na diversidade sexual.


Agora, restam à esquerda radical, os movimentos sociais e as demais entidades de classe perceberam que a luta por direitos iguais é uma bandeira das lutas sociais. O que poderá fornecer uma fruição mutua de experiências e aprendizados, potencializando que a luta de transformação da cidade é de todos e todas.


O Bloco da Diversidade foi uma maneira de evidenciar o preconceito existente na cidade. Aparentemente no momento do desfile os conflitos tenham se amenizado, o que não poderá nos causar ilusões, pelo contrário, enquanto um sotaque for motivo de piada ou um beijo entre dois homens sofrer retaliações pela moral alheia, a bandeira da diversidade precisa ser esticada nas ruas centrais, se preciso dentro da linha norte sul ou no campus universitário. 


Nota IV (ou: uma tentativa de considerações finais)


As considerações redigidas estão superficiais. O pouco tempo para a problematização e reflexão do tema não possibilitou uma análise mais elaborada. É importante considerar que a existência do carnaval é fruto das pessoas dos bairros, que fazem do samba uma paixão além de fevereiro. A presença do carnaval é uma realidade na cidade, independente dos nossos aspectos germânicos no trajeto da história da cidade. O que é preciso não é a segregação das pessoas de origem alemã. Basta continuar a fazer o carnaval nas ruas da cidade, aberta diversidade componente da cidade, assim potencializando um aprendizado de respeito entre as diferentes composições culturais. É preciso visualizar o Bloco da Diversidade com olhar solidário. Pois, o preconceito existe nas ruas da cidade, seja por  uma pessoa morar no Jardim Paraíso, ser originário do Paraná ou por um homem amar profundamente outro homem.